domingo, 18 de março de 2012

A PSICANÁLISE SEGUNDO D. W. WINNICOTT




Donald Woods Winnicott foi um pediatra inglês que se tornou psicanalista após cumprir uma formação na Sociedade Britânica de Psicanálise, especializando-se no atendimento de crianças e adolescentes. Assim, a origem da sua orientação teórico-clínica, que influenciou muito a técnica psicanalítica desde então, sobretudo a chamada escola das relações objetais, tem alguns marcos importantes: a sua experiência como pediatra, que possibilitou uma compreensão muito acurada do processo de constituição da subjetividade através da observação de crianças e de bebês com ou sem distúrbios psíquicos; sua leitura da obra de Freud e de Melanie Klein, pioneira no atendimento psicanalítico de crianças e teórica muito influente; o acesso indireto e muitas vezes inexplicável às idéias de Sándor Ferenczi – talvez através de Melanie Klein e Michael Balint, também húngaros –, o primeiro psicanalista a privilegiar o papel do ambiente na constituição da subjetividade e a destacar as figuras do trauma, da regressão à dependência e do jogo no manejo clínico; o fato de ele tratar, em meados do século, pacientes cuja configuração subjetiva se afastava das neuroses clássicas; por último mas não menos importante, o impacto incomensurável da sua experiência de análise pessoal.
Os princípios de qualquer tratamento psicanalítico, desde Freud, são o manejo da transferência, modus operandi da psicanálise, o respeito pela resistência – positivada – do paciente e o emprego da interpretação do recalcado como instrumento para a elaboração dos conflitos afetivos. A diferença impressa por Winnicott no campo psicanalítico foi o entendimento de que o método clássico era adequado às configurações neuróticas, mas não para os pacientes mais regredidos que se aventurava a atender. Assim, a partir dessa experiência, Winnicott percebeu que a situação clínica se configurava como uma situação altamente especializada do plano de cuidados, onde o manejo do setting e a oferta de suporte (holding) para as experiências arcaicas de contato com alteridade por parte do analisando pudessem acontecer satisfatoriamente. Com isso, pôde se desenvolver um estilo clínico no qual o psicanalista se disponibiliza para ser “usado” pelo analisando, não no sentido de um feixe de projeções de fantasmas pré-existentes a serem interpretados, mas no sentido de poder ser reconhecido como uma substância diferente-de-si. Nesse estilo clínico, o espaço terapêutico pode ser definido como uma área de experimentação nomeada de brincar compartilhado e o psicanalista não pretende se destacar das possibilidades criativas inauguradas pela constituição de tal espaço.
Na psicanálise, o diagnóstico se impõe apenas na medida de uma hipótese de trabalho. Um diagnóstico consistente só se poderia realizar ao fim do tratamento, como dizia Freud, quando o sofrimento do paciente adquire um sentido singular. E aí, já não tem mais muita serventia. Portanto, acompanhando Freud, na concepção winnicottiana a primeira e principal função do diagnóstico é avaliar se o tratamento deve ser iniciado, ou se é melhor deixar as coisas como estão (ele sabia bem o quanto uma psicanálise mal conduzida pode ser iatrogênica). Além disso, impõe-se também a questão acerca da disponibilidade do analista em tratar aquela pessoa. Finalmente, como a leitura diagnóstica não é baseada na concepção de estruturas clínicas, muitas vezes é preciso conhecer o grau de regressão do paciente para avaliar, segundo a forma pela qual a transferência se manifesta, a aplicabilidade da técnica psicanalítica clássica ou a necessidade de um manejo diferenciado.
O que se espera do tratamento é que o analisando possa, gradualmente, se despojar das posições reativas rumo ao gesto espontâneo e ao viver criativo. Em última instância, que o paciente que não sabe brincar possa aprender a brincar com o psicanalista (este, claro, deve saber brincar, o que muitos preferem esquecer).
 Na psicanálise com orientação winnicottiana o psicanalista se direciona pelo que podemos chamar de uma ética do cuidado. Seu compromisso maior é com a pessoa que padece, e da qual se dispõe a tratar, buscando transformar o sofrimento restritivo e facilitar a emergência de processos criativos. Nesse sentido, se afasta tanto dos métodos mais diretivos que estabelecem uma finalidade a priori a ser atingida, quanto das orientações psicanalíticas que, em nome da superação de uma suposta “covardia moral”, apostam em uma técnica excessivamente distanciada buscando, assim, promover a responsabilização do analisando pelos seus atos. Desse modo a clínica assume, de forma plena, os dois sentidos que se pode encontrar na sua origem etimológica: klinikos, o debruçar-se sobre o leito do paciente, acolhendo a sua dor, e o clinamen, o desvio transformador e criativo.
A possibilidade de resgate do que Winnicott chamou, na sua precisa simplicidade, de viver criativo. Para Winnicott, são três os objetivos do tratamento psicanalítico: conservar vivo, bem e desperto, seja o analisando, seja o analista, bem como todos aqueles que entram em contato com a psicanálise. A grande contribuição de Winnicott para o campo psicanalítico foi lembrar que o viver é mais importante que a própria psicanálise, mais belo e mais trágico que as teorias supostamente bem acabadas e suas verdades inquestionáveis.



Com base na entrevista de Daniel Kupermann concedida ao jornal do CRP-RJ em dezembro de 2006.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O QUE FREUD EXPLICA NOS DIAS DE HOJE?




“Compreender é uma maneira de se reconciliar com o tempo
– não de se resignar ao que é, mas de tornar-se capaz de
acolher o que advém.”

Hannah Arendt



Sigmund Freud viveu numa sociedade que exercia forte controle sobre o comportamento sexual dos indivíduos, em especial das mulheres, que se sentiam culpadas, pecaminosas e sujas ao verem brotar os desejos dentro de si. A repressão sexual era a base para a neurose do tipo histeria que, particularmente na Europa ocidental, tornou-se quase epidemia em todas as classes sociais: jovens mulheres apresentavam quadros graves com desmaios, alterações de dupla personalidade, paralisias, convulsões. Na sociedade de hoje, sexualmente liberalizada, aquelas neuroses clássicas dificilmente são encontradas – por vezes em subgrupos específicos, como de religiosos onde o controle da libido permanece intenso. “Mas vale acrescentar que Freud, sua teoria e a psicanálise contribuíram muito para aumentar a tolerância e permitir as realizações sexuais. É uma prova de que Freud está presente em nosso tempo”, observa o psiquiatra e psicanalista Mário Eduardo Costa Pereira, professor da Faculdade de Ciências Médicas.
Se as histerias dos tempos de Freud já não estão tão presentes, vale ressaltar que as estatísticas no campo da psiquiatria mostram que as taxas de depressão crescem sem parar. É evidente que o pensamento freudiano encontra desafios com as marcas dos nossos tempos, como o debate com as neurociências, com o atual sistema econômico neoliberal e a construção de subjetividades numa sociedade globalizada. Nesse sentido, é importante considerar que a teoria e a metodologia de Freud talvez sejam as únicas que se propõem a estudar a subjetividade, tomando cada ser humano como singular, mesmo pertencendo ao grupo genérico dos humanos.
Entre os parâmetros ideais de hoje para que o indivíduo avalie sua vida estão o trabalho, o dinheiro, a beleza, os bens de consumo, o sucesso. No entanto, pouquíssimas pessoas alcançam estas metas, sendo que muitas já são antecipadamente excluídas da corrida, impedidas sequer de sonhar com esses ideais por causa das condições socioeconômicas. O preço para se atingir as promessas de felicidade capitalista é a frustração, a angústia, o estresse, a hipertensão, a crise de pânico. Há quem atinja e se dá conta de que não chegou ao paraíso. Quem se vê excluído do processo, acha-se um ser humano de segunda categoria e fica igualmente a um passo da depressão.  

Do divã à pílula


Em outra referência aos recursos modernos – quando Freud recorria às confidências do divã, através do método da associação livre, o professor de Unicamp faz ressalvas quanto ao uso, sobretudo ideológico, dos medicamentos disponíveis para aliviar sintomas como mal-estar, depressão, ansiedade, insônia, impotência e para o controle de sintomas psicóticos:

“As drogas são úteis do ponto de vista clínico, mas as grandes questões humanas não se resumem à falta de Prozac. Uma boa pílula não ataca os problemas concretos em nível existencial. Também é verdade que, tecnicamente, estamos cada vez mais próximos da ‘pílula da felicidade’, o que vai exigir uma avaliação dos aspectos éticos na introdução desse tipo de droga, pois os conflitos e desejos humanos, enquanto ais, estão fora do âmbito da farmacologia”. A propósito, Costa Pereira acrescenta que nunca houve uma medicina tão baseada na ciência e tecnologia, cuja eficácia está comprovada, mas que provoca sérios reflexos na clínica médica. “Temos cada vez mais médicos especialistas, com conhecimentos que brotam das ciências naturais, e menos a figura do médico que se preocupe com a dimensão humana da doença e o sofrimento do paciente. Não é casual, portanto, o número sem precedentes de pessoas de todas as classes sociais que estão recorrendo a curas alternativas e espirituais – cristais, duendes, bruxarias. Novamente, vemos um sinal de que a tecnologia dá resposta a problemas pontuais, mas deixa completamente intocadas as grandes questões humanas, as quais emergem com toda sua intensidade justamente no âmbito da prática médica”.

No nosso sistema tempo é dinheiro, sendo que o serviço público ainda precisa dar conta da grande demanda. Por outro lado, para a população, a figura do profissional altamente especializado que recomenda exames sofisticados virou um fetiche, quando a maior parte dos casos poderia ser resolvida no nível da clínica geral. Introduzir no sistema o médico de família, que olhe o paciente como um humano doente e não como um corpo biológico doente, é mais um desafio para a política de saúde.
Mesmo com todos os avanços da medicina e da farmacologia, a Psicanálise se mostra como uma das formas mais eficazes em busca do subjetivo. A análise deve ser sentida como um espaço transicional, acolhedor, permitindo a cada paciente criar e restaurar novos aspectos e nova linguagem para a sua história. Assim, a análise possibilitará ao sujeito romper com as suas fixações, superando os recalques, o que lhe permitirá a reconstrução de uma nova história, recolocando o paciente diante da possibilidade de desejar de forma diferente e criativa. Desconstruindo, o sujeito poderá vir a construir. Nas palavras da poetisa Cecília Meireles fica uma reflexão para nosso mundo moderno: “A vida só é possível reinventada”.

Texto adaptado de:  Jornal da UNICAMP – Agosto / 2006




 ————  Ψ  ————


                                                                                             Renne dos Santos Nunes
                                                                                              Psicólogo

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

BAIXA FIDELIDADE


Históricos da web, torpedos mal apagados e e-mails equivocados são fontes permanentes de devastação amorosa; a vida digital tornou o conceito de traição imensamente mais elástico


por Christian Ingo Lenz Dunker


Imagem: Gonçalo Viana

Escrevi os originais de meu mestrado em uma máquina de escrever. Tive um fax modem e joguei Donkey Kong. Juro que já existiram pessoas pagando fortunas por um celular tipo tijolo depois de esperar a vida toda por um telefone fixo. Sei o que é a internet antes da banda larga. Vi, com estes olhos que a terra há de comer, o primeiro video--clipe, se é que você pode imaginar um tempo no qual não existia a MTV. Assisti à morte do vinil, da indústria fotográfica e fonográfica. Cala fundo em mim a lenta agonia do CD. Sou da época em que computadores tinham sólida e insuperável identidade: 286, 386, 486. Deveria haver algum privilégio em ser da primeira geração, ou pelo menos algum orgulho de ter vivido alguma coisa pela primeira vez.
O filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen (2011), explora justamente esse fascínio retrospectivo causado pelas gerações que inventaram coisas que pareciam fazer a vida valer a pena: a era áurea do jazz e do surrealismo nos anos 20, o filme noir e suas divas dos 40, o existencialismo sartriano do pós-guerra, a turma beatnik da contracultura. Eu me contentaria em ter assistido ao Dark side of the moon ou visto os Beatles. Serve The Who ou Stones. Estaria satisfeito até mesmo com bossa-nova, jovem guarda e tropicália. Se não for possível troco tudo por alguns seminários de Lacan ou Foucault. 
Pressinto que as gerações vindouras olharão para trás a nos respeitar como aquela turma dos antológicos e inesquecíveis Google, Facebook e Wikipedia. Somos os primeiros a viver esta vida digital e os últimos a lembrar como éramos antes disso. Mas será que alguém realmente vai cobiçar a experiência inédita de ver aparecer na sua frente, magicamente, um e-mail? Antigamente havia uma propaganda que dizia: o primeiro sutiã a gente nunca esquece. Se não me engano foi vencedora do Leão de Ouro do festival de Cannes nos anos 80. A fórmula funciona, mas não é por causa do sutiã, é por recuperar a força insondável, que habita cada um de nós, em torno da primeira vez. 
Somos absolutamente fiéis à primeira vez, para o bem e para o mal. Acho que não foi por outro motivo que Freud estabeleceu esta regra de ouro clínica de que é preciso prestar muita atenção às comunicações iniciais do paciente. Fixar bem as primeiras sessões. Reter a forma precisa na qual algo é dito pela primeira vez. Perto da primeira vez, as outras são apenas cópias impuras e mal-acabadas. É por isso que o passado se torna nosso baú fetichista. Nele podemos imaginar a primeira vez que presidiu a constelação de desejos que nos concebeu. A forma mais pura e intangível da primeira vez, antes mesmo que ela tenha existido para nós, a arquiprimeira vez, a mãe de todas as primeiras vezes.
Acontece que é difícil permanecer fiel a uma experiência cuja verdade nos é desconhecida e, principalmente, uma coisa que parece feita para destruir todas as fidelidades constituídas. No fundo, a maior parte desta novidade que é a vida digital segue a máxima mais do mesmo: trabalhar mais, mais rápido, mais interligado, mais fácil, mais solitariamente – mesmo acompanhado. Mas há uma coisa na qual ela realmente inovou: no modo de destruir fidelidades. Históricos da web, torpedos mal apagados, e-mails equivocados são fontes permanentes de devastação amorosa. A vida digital tornou o conceito de traição imensamente mais elástico, flexível e discutível, disponibilizando o resgate nunca antes possível de figuras de nosso histórico desejante mais longínquo. Ou seja, uma enxurrada de primeiras vezes, para todos os gostos e sabores, do pré-primário ao colegial (leia-se ensino médio). Espero que não, mas acho que seremos lembrados como a geração que inventou a baixa fidelidade generalizada. 




Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).






 
————  Ψ  ————

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O TRIUNFO DA MORBIDEZ?




Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
– Clarice Lispector


O pensador francês Blaise Pascal, um dos mais influentes filósofos e cientistas da nossa cultura desde o século 17, dedicou boa parte de seu trabalho reflexivo aos temas que, dizia, vão além da capacidade humana de entendimento, repousando a inserção deles exclusivamente no terreno do místico e do insondável. Pascal exercitava o que chamamos (às vezes cinicamente) de “perscrutar a alma humana”, em busca de explicações sobre nós e o sentido daquilo que fazemos e, apreciador de aparentes paradoxos, dizia que “quando estamos de boa saúde, admiramo-nos de como seria possível estar doentes; quando isso acontece, medicamo-nos alegremente.”


Há uma extrema contemporaneidade nessa perspectiva pascaliana, principalmente agora, quando tratar de doença, em vez de consolidar a saúde, tornou-se uma rotina reconfortante. Aceita-se com tranquilidade, por exemplo, a ideia de que o stress agudo e suas outras decorrências faz parte da vida cotidiana e, dessa forma, sendo uma consequência da “normalidade” de nossa existência, é necessário absorver maneiras de coabitação com ele; tomar medicamentos (e trocar receitas e referências médicas) tornou-se uma obsessão e uma temática recorrente nas inúmeras situações de convívio que a vida extensamente urbana impõe.


Qualquer ocasião de encontro entre pessoas, fortuito ou intencional (no trabalho, nas festas, nos deslocamentos, nas filas, etc.), é suficiente para, com rapidez, ensejar um frenético escambo de posturas religiosas curativas, sugestões farmacológicas ou dietéticas, indicações profissionais especializadas e, claro, medidas eficazes de profilaxia laboral e espiritual, culminando com algumas hipócritas e falsas versões holísticas que prescrevem ervas cultivadas na terra (envenenada) como se fossem espécies de rosas de Hiroshima.
Assim, ocupamos uma boa parte do nosso tempo fora do mundo do trabalho – incessante e extenuante – cuidando das nossas doenças, só para podermos ficar momentaneamente aptos para continuar agindo do mesmo jeito que agíamos, e, portanto, conseguirmos melhores condições para fortalecer ainda mais as circunstâncias que nos deixam doentes...


Sigmund Freud, na segunda década do século 20, deixou de dar atenção estrita aos mecanismos de funcionamento do psiquismo individual e passou a dirigir o olhar psicanalítico (por ele fundado) também para os obstáculos da convivência humana em sociedades complexas; esse inédito esforço resultou, em 1930, na publicação da obra O mal-estar na civilização, na qual ele examina as razões pelas quais cada um de nós aceita reprimir as próprias bases constitutivas originais para sentir-se minimamente seguro em meio aos outros. Ou, como hoje diríamos, para ser socialmente aceito e coletivamente assimilado, vale até mesmo arcar com a custosa perda da autenticidade, da individualidade e da salubridade.


Vivemos agora a civilização do mal-estar? É provável; não estamos nos viciando em remédios, mas isso sim, em doenças que entendemos como normais, gerando uma passividade brutal, intensamente vivida em torno do patológico e da submissão ao poder sedutor do mórbido. Por isso, o arguto escritor irlandês Bernard Shaw (Nobel de Literatura em 1925) nos avisou: “Mens sana in corpore sano é uma máxima absurda. O corpo são é o produto do espírito são”.
A vida é curta para cuidar de tudo isso? Então, retomemos um contemporâneo e conterrâneo de Pascal, o ensaísta Jean de la Bruyère: “Aqueles que gastam mal o seu tempo são os primeiros a queixar-se de sua brevidade”.




Texto extraído do livro:
CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos! : Provocações filosóficas. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2009.


 ———— Ψ ————


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

NÃO NASCEMOS PRONTOS!



Mario Sergio Cortella

O sempre surpreendente Guimarães Rosa dizia: “o animal satisfeito dorme”. Por trás dessa aparente obviedade está um dos mais fundos alertas contra o risco de cairmos na monotonia existencial, na redundância afetiva e na indigência intelectual. O que o escritor tão bem percebeu é que a condição humana perde substância e energia vital toda vez que se sente plenamente confortável com a maneira como as coisas já estão, rendendo-se à sedução do repouso e imobilizando-se na acomodação.
A advertência é preciosa: não esquecer que a satisfação conclui, encerra, termina; a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento. A satisfação acalma, limita, amortece.
Por isso, quando alguém diz “fiquei muito satisfeito com você” ou “estou muito satisfeita com seu trabalho”, é assustador. O que se quer dizer com isso? Que nada mais de mim se deseja? Que o ponto atual é meu limite e, portanto, minha possibilidade? Que de mim nada mais além se pode esperar? Que está bom como está? Assim seria apavorante; passaria a ideia de que desse jeito já basta. Ora, o agradável é quando alguém diz: “teu trabalho (ou carinho, ou comida, ou aula, ou texto, ou música, etc.) é bom, fiquei muito insatisfeito e, portanto, quero mais, quero continuar, quero conhecer outras coisas”.
Um bom filme não é exatamente aquele que, quando termina, ficamos insatisfeitos, parados, olhando, quietos, para a tela, enquanto passam os letreiros, desejando que não cesse? Um bom livro não é aquele que, quando encerramos a leitura, o deixamos um pouco apoiado no colo, absortos e distantes, pensando que não poderia terminar? Uma boa festa, um bom jogo, um bom passeio, uma boa cerimônia não é aquela que queremos que se prolongue?
Com a vida de cada um e da cada uma também tem de ser assim; afinal de contas, pois estar satisfeito consigo mesmo é considerar-se terminado e constrangido ao possível da condição do momento.
Quando crianças (só as crianças?), muitas vezes, diante da tensão provocada por algum desafio que exigia esforço (estudar, treinar, emagrecer, etc.) ficávamos preocupados e irritados, sonhando e pensando: por que a gente já não nasce pronto, sabendo todas as coisas? Bela e ingênua perspectiva. É fundamentalmente não nascermos sabendo e nem prontos; o ser que nasce sabendo não terá novidades, só reiterações. Somos seres de insatisfação e precisamos ter nisso alguma dose de ambição; todavia, ambição é diferente de ganância, dado que o ambicioso quer mais e melhor, enquanto que o ganancioso quer só para si próprio.
Nascer sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, refazer, modificar. Quando mais se nasce pronto, mais refém do que já se sabe e, portanto, do passado; aprender sempre é o que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas, não saberíamos enfrentar.
Diante dessa realidade, é absurdo acreditar na ideia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica; para que alguém quanto mais vivesse mais velho ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando…
Isso não ocorre com gente, e sim com fogão, sapato, geladeira. Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta, e vai se fazendo. Eu, no ano que estamos, sou a minha mais nova edição (revista e, às vezes, um pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o tempo a medida) está no meu passado e não no presente.
Demora um pouco para entender tudo isso; aliás, como falou o mesmo Guimarães, “não convém fazer escândalo de começo; só aos poucos é que o escuro é claro”…

 ———— Ψ ————

Que o ano de 2012 seja, para todos nós, um ano de muitas conquistas e buscas, a fim de nos fazermos um pouco mais, de revisarmos a nós mesmos e aceitarmos o desafio de construir uma existência menos confortável, porém ilimitada e infinitamente mais significativa e gratificante! E que a insatisfação seja um elemento indispensável para quem, mais do que repetir, deseja criar, inovar, refazer, modificar e aperfeiçoar neste novo ano!


                                                                                             Renne dos Santos Nunes
                                                                                              Psicólogo




   Texto extraído do livro:
          CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos! : Provocações filosóficas. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Mais rótulo do que diagnóstico...

A campanha da CCHR critica o exagero de diagnósticos psiquiátricos que as crianças e adolescentes recebem frequentemente na atualidade: transtornos de deficit de atenção e hiperetividade, transtorno de humor e de personalidade, fobia social e até depressão. Muitas vezes o que é visto como patologia é justamente o ponto onde a criança exerce sua singularidade e sua genialidade.

20 milhões de crianças são rotuladas com "transtornos mentais" que se baseiam unicamente em uma lista de comportamentos. Não há mapeamento cerebral, radiografias, exames genéticos ou de sangue que mostram que são doentes mentais, no entanto, à essas crianças são prescritas drogas psiquiátricas perigosas que põem em risco suas vidas.


Assista o vídeo!


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A INVEJA


                                  Trecho do filme: DÚVIDA
A inveja é um sentimento que expressa um comportamento associado ao ato de dissimular, fingir, falsear e mentir. É um sentimento negativo e destrutivo. A inveja traz consigo a devastação e a catástrofe. Ao longo da história da humanidade, o ser humano aprendeu a se precaver contra ela. Cada cultura desenvolveu recursos na forma de amuletos, já que ela está associada ao “mau olhado”, à má sorte. Assim, a figa é colocada nas portas das casas ou nas roupas dos recém nascidos como forma de evitar quebranto. Surgem as benzedeiras que se utilizam de ervas como arruda; espada de São Jorge ou Santa Bárbara e a guiné para evitar esse mal. A maioria dos ritos africanos está voltada para cortar esse mal. Amuletos; plantas; defumações; danças religiosas; dentes de elefantes; metais, pulseiras e outros, são utilizados com esse fim.
Melanie Klein em seu livro “Inveja e Gratidão” classifica a “inveja como um sentimento raivoso, causado pelo fato de outra pessoa possuir e desfrutar algo desejável por mim.”
No fundo da inveja existe uma profunda baixa estima, encouraçada por um orgulho que visa a fornecer uma ilusão de onipotência. Essas pessoas se consideram as melhores, o que fazem geralmente é espetacular e acreditam que tudo o que tocam viram ouro. São pessoas normalmente classificadas como orgulhosas, arrogantes, onipotentes e... solitárias.
Inveja é diferente de cobiça. Na inveja, por exemplo, deseja-se aquilo que o outro tem e que eu admiro, mas de uma maneira muito particular: se eu tenho uma roseira bonita, o invejoso deseja a MINHA roseira, ou deseja que a roseira MORRA, para ninguém tê-la. Aquele que cobiça, deseja ter UMA roseira, mas não a minha. De uma forma geral: o invejoso deseja obter ou destruir aquilo que eu tenho de bom. Aquele que cobiça deseja algo igual ao que possuo, mas não exatamente o que possuo.
O mecanismo básico responsável pelos sentimentos do invejoso é a comparação e esta é uma forma de aprendizado muito comum em nossa sociedade. Desde pequenos ouvimos de nossos pais: “seu irmão é mais inteligente”, “fulano é mais esforçado…”. Nosso sistema de ensino é todo voltado para a competição, onde se valoriza o primeiro lugar e não as competências e realizações de cada um. Nossa sociedade é competitiva e comparativa. Logo, a inveja é sentida e apreendida por nós precocemente.
Guernica - Pablo Picasso
O sucesso de alguém passa a ser sentido para o invejoso como ofensa pessoal, pois, o comportamento exteriorizado é o da competição. Competição interna, feita consigo mesmo, no seu inconsciente. Isso gera infelicidade e tristeza que o invejoso não pode admitir. Ele precisa sempre criticar ou tirar o brilho do sucesso do outro. A inveja tem uma grande máscara que é o despeito. “Também... teve sucesso porque seu pai o ajudou... olha a família que ele tem”.
Para que se estabeleça a inveja é necessário que ocorram duas situações: não tolerar o sucesso do outro e sentir um enorme prazer pela mágoa do outro. Na inveja o alvo é o outro, mesmo que sua situação financeira e posição social sejam inferiores. Passamos a ser prisioneiros da vida do outro. Sonhamos com sua destruição... destruição essa que nos dá um prazer enorme. A destruição do outro passa a ser nossa fonte de prazer.
Chegamos ao absurdo até de invejar comportamentos desonestos, achando que vale a pena para ser bem sucedido. Isto faz uma cisão no comportamento e crescimento de nossa sociedade. A inveja torna o ser humano um grande predador em busca do TER. A crença e o sentimento de TER e fazer para que o outro não tenha, acaba causando profundas diferenças sociais que já estamos sentindo no processo de evolução da humanidade.
 
A gratidão, ao contrário da inveja, é um sentimento que permite que se tenha acesso às coisas boas do outro. Aquele que é grato reconhece no outro algo que falta em si e nem por isso tem uma baixa estima. Muito pelo contrário. Feliz aquele que sabe suas faltas e sabe buscar isso no outro, mas não de uma forma destrutiva, mas como resultado das trocas normais de um relacionamento.
Quando nos relacionamos em sociedade, no trabalho, num namoro ou casamento buscamos que os outros nos complementem em nossas faltas básicas. Podemos, nesse sentido, entregar para o outro o fruto de nossos dons que podem cobrir a falta do outro, e o outro, da mesma forma conosco, tornando a vida mais feliz. Um exemplo simples seria um casal em que um é desorganizado e decidido, e o outro, organizado e indeciso. Juntando tudo, temos um bom casal, desde que haja respeito mútuo em relação às diferenças. Nesse caso, pode aparecer a gratidão.
 O invejoso não consegue isso, pois no caso do casal acima, não poderia haver troca. Caso o desorganizado seja o invejoso, esse procurará usufruir da organização do outro sem nada entregar em troca. E em uma ocasião muito comum, ele procurará exigir mais do que o outro pode dar. A partir daí ele pode anular tudo o que o outro tem de bom. Essas relações desagregam.
O mundo é um farto banquete a nossa disposição. Quando não conseguimos usufruir dessas coisas boas, a inveja muitas vezes é a vilã dessa situação.
Para finalizar, eis um soneto de Machado de Assis, Círculo Vicioso:

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela!
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- Pudesse eu copiar o transparente lume,
que, da grega coluna à gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume!
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

- Pesa-me esta brilhante aureola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?