sábado, 29 de dezembro de 2012

A psicanálise ensina alguma coisa sobre o amor?


Psychologies Magazine, outubro 2008, n° 278
Entrevista a Jacques-Alain Miller realizada por Hanna Waar 




Psychologies: A psicanálise ensina alguma coisa sobre o amor?

Jacques-Alain Miller: Muito, pois é uma experiência cuja fonte é o amor. Trata-se desse amor automático, e freqüentemente inconsciente, que o analisando dirige ao analista e que se chama transferência. É um amor fictício, mas é do mesmo estofo que o amor verdadeiro. Ele atualiza sua mecânica: o amor se dirige àquele que a senhora pensa que conhece sua verdade verdadeira. Porém, o amor permite imaginar que essa verdade será amável, agradável, enquanto ela é, de fato, difícil de suportar.

P.: Então, o que é amar verdadeiramente?

J-A Miller: Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão "Quem sou eu?".

P.: Por que alguns sabem amar e outros não?

J-A Miller: Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers - se posso dizer - homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias. 

P.: "Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso...

J-A Miller: Acertou! "Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem". O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua "castração", como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.

P.: Amar seria mais difícil para os homens?

J-A Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a "degradação da vida amorosa" no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.

P.: E nas mulheres?

J-A Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem...

P.: Por que "cada vez mais"?

J-A Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman. Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.

P.: “O amor é sempre recíproco”, dizia Lacan. Isso ainda é verdade no contexto atual? O que significa?

J-A Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.

P.: Não se encontra seu ‘cada um’, sua ‘cada uma’ por acaso. Por que ele? Por que ela?

J-A Miller: Existe o que Freud chamou de Liebesbedingung, a condição do amor, a causa do desejo. É um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um função determinante na escolha amorosa. Isto escapa totalmente às neurociências, porque é próprio de cada um, tem a ver com sua história singular e íntima. Traços às vezes ínfimos estão em jogo. Freud, por exemplo, assinalou como causa do desejo em um de seus pacientes um brilho de luz no nariz de uma mulher!

P.: É difícil acreditar em um amor fundado nesses elementos sem valor, nessas baboseiras!

J-A Miller: A realidade do inconsciente ultrapassa a ficção. A senhora não tem idéia de tudo o que está fundado, na vida humana, e especialmente no amor, em bagatelas, em cabeças de alfinete, os “divinos detalhes”. É verdade que, sobretudo no macho, se encontram tais causas do desejo, que são como fetiches cuja presença é indispensável para desencadear o processo amoroso. As particularidades miúdas, que relembram o pai, a mãe, o irmão, a irmã, tal personagem da infância, também têm seu papel na escolha amorosa das mulheres. Porém, a forma feminina do amor é, de preferência, mais erotômana que fetichista : elas querem ser amadas, e o interesse, o amor que alguém lhes manifesta, ou que elas supõem no outro, é sempre uma condição sine qua non para desencadear seu amor, ou, pelo menos, seu consentimento. O fenômeno é a base da corte masculina.

P.: O senhor atribui algum papel às fantasias?

J-A Miller: Nas mulheres, quer sejam conscientes ou inconscientes, são mais determinantes para a posição de gozo do que para a escolha amorosa. E é o inverso para os homens. Por exemplo, acontece de uma mulher só conseguir obter o gozo – o orgasmo, digamos – com a condição de se imaginar, durante o próprio ato, sendo batida, violada, ou de ser uma outra mulher, ou ainda de estar ausente, em outro lugar.

P.: E a fantasia masculina?

J-A Miller: Está bem evidente no amor à primeira vista. O exemplo clássico, comentado por Lacan, é, no romance de Goethe, a súbita paixão do jovem Werther por Charlotte, no momento em que a vê pela primeira vez, alimentando ao numeroso grupo de crianças que a rodeiam. Há aqui a qualidade maternal da mulher que desencadeia o amor. Outro exemplo, retirado de minha prática, é este: um patrão qüinquagenário recebe candidatas a um posto de secretária. Uma jovem mulher de 20 anos se apresenta; ele lhe declara de imediato seu fogo. Pergunta-se o que o tomou, entra em análise. Lá, descobre o desencadeante: ele havia nela reencontrado os traços que evocavam o que ele próprio era quando tinha 20 anos, quando se apresentou ao seu primeiro emprego. Ele estava, de alguma forma, caído de amores por ele mesmo. Reencontra-se nesses dois exemplos, as duas vertentes distinguidas por Freud: ama-se ou a pessoa que protege, aqui a mãe, ou a uma imagem narcísica de si mesmo.

P.: Tem-se a impressão de que somos marionetes!

J-A Miller: Não, entre tal homem e tal mulher, nada está escrito por antecipação, não há bússola, nem proporção pré-estabelecida. Seu encontro não é programado como o do espermatozóide e do óvulo; nada a ver também com os genes. Os homens e as mulheres falam, vivem num mundo de discurso, e isso é determinante. As modalidades do amor são ultra-sensíveis à cultura ambiente. Cada civilização se distingue pela maneira como estrutura a relação entre os sexos. Ora, acontece que no Ocidente, em nossas sociedades ao mesmo tempo liberais, mercadológicas e jurídicas, o “múltiplo” está passando a destronar o “um”. O modelo ideal do “grande amor de toda a vida” cede, pouco a pouco, terreno para o speed dating, o speed loving e toda floração de cenários amorosos alternativos, sucessivos, inclusive simultâneos.

P.: E o amor no tempo, em sua duração? Na eternidade?

J-A Miller: Dizia Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante”. Entretanto, pode o laço se manter por toda a vida no registro da paixão? Quanto mais um homem se consagra a uma só mulher, mais ela tende a ter para ele uma significação maternal: quanto mais sublime e intocada, mais amada. São os homossexuais casados que melhor desenvolvem esse culto à mulher: Aragão canta seu amor por Elsa; assim que ela morre, bom dia rapazes! E quando uma mulher se agarra a um só homem, ela o castra. Portanto, o caminho é estreito. O melhor caminho do amor conjugal é a amizade, dizia, de fato, Aristóteles.

P.: O problema é que os homens dizem não compreender o que querem as mulheres; e as mulheres, o que os homens esperam delas...

J-A Miller: Sim. O que faz objeção à solução aristotélica é que o diálogo de um sexo ao outro é impossível, suspirava Lacan. Os amantes estão, de fato, condenados a aprender indefinidamente a língua do outro, tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis. O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.

domingo, 25 de novembro de 2012

PRATOS QUEBRADOS



Vladimir Safatle

 I.
“Um homem não se recupera desses solavancos, ele se torna uma pessoa diferente e eventualmente a nova pessoa encontra novas preocupações.” Foi isso o que Scott Fitzgerald tinha a dizer depois de seu colapso nervoso. Ele se via como um prato quebrado, “o tipo que nos perguntamos se vale a pena conservar”. Prato que nunca mais será usado para visitas, mas que servirá para guardar biscoitos tarde da noite.
De fato, há certos momentos no interior da vida de um sujeito nos quais algo quebra, que não será mais colado. Olhando para trás, é estranho ter a sensação de que andávamos em direção a esse ponto de ruptura, como se fosse impossível evitá-lo caso quiséssemos continuar avançando. Como se houvesse passagens que só poderiam ser vivenciadas como quebra. Talvez isso ocorra porque somos feitos de forma tal que precisamos nos afastar de certas experiências, de certos modos de gozo, para podermos funcionar. Dessa forma, conseguiremos fabricar um prato com nossas vidas, um prato pequeno. A mulher que precisa se afastar da maternidade, o homem que precisa se afastar de uma paixão na qual se misturam coisas que deveriam estar separadas: todos esses são casos de pratos fabricados para não passarem de certo tamanho.
No entanto, somos às vezes pegos por situações nas quais acabamos por nos confrontar com aquilo que nos horroriza e fascina. Se quisermos continuar, sabemos que, em dado momento, o prato se quebrará, que ele nunca será recuperado, que talvez não funcionará “melhor”, até porque ele viverá com a consciência clara de que há vários pontos da superfície nos quais sua vulnerabilidade ficará visível. Como disse Fitzgerald, um homem não se recupera desses solavancos. Algo desse sofrimento fica inscrito para sempre.
Mas ele também poderá descobrir que, mesmo depois da quebra, ainda é capaz de se colar, de continuar funcionando, um pouco como esses pratos que pintamos de outra forma para disfarçar as rachaduras. Se bem elaborada, tal experiência poderá levar à diminuição do medo daquilo que, um dia, fomos obrigados a excluir. Talvez aprendamos a compor com doses do excluído, já que a necessidade da exclusão não era simplesmente arbitrária, embora ela não precise ser radicalmente hipostasiada. Algo do excluído poderá ser trabalhado e integrado; algo deverá ser irremediavelmente perdido.
Um dia, descobriremos que todos os pratos da sala de jantar estão quebrados em algum ponto e que é com pratos quebrados que sempre se ofereceram jantares. Os pratos que não passam por alguma quebra são pequenos e, por isso, só servem para a sobremesa. No entanto, ninguém vai ao banquete por causa da sobremesa.

II.
Há pessoas que parecem estar sempre à espera de uma catástrofe. Quando dificuldades e necessidades de reacordos aparecem na vida, elas só podem ver nisso o prenúncio da catástrofe anunciada. Por terem, no fundo, vivido sob o signo da catástrofe iminente, elas não desenvolveram a capacidade de suportar um tempo de espera, a confiança de que podemos sempre encontrar modos de superar obstáculos. No entanto, boa parte de seus problemas vem do fato de elas esquecerem que, nem sempre, bater de frente contra um muro é a melhor maneira de atravessá-lo.

Um dia, Arnold Schoenberg disse a seu aluno John Cage: “Você compõe como quem bate a cabeça contra um muro”. “Então, quero bater minha cabeça até perfurá-lo”, respondeu Cage. A ideia pode ser boa, mas realizá-la talvez não seja a melhor coisa a fazer. Não por acaso, Cage será lembrado como alguém que tinha boas ideias, embora suas realizações nem sempre fossem realmente boas. Um muro não é algo feito para ser perfurado com a cabeça. No entanto, isso não significa que nossa cabeça seja fraca; significa que devemos aprender a saltar.


Para as pessoas que parecem estar sempre à beira de uma catástrofe, vale a pena lembrar que toda dificuldade é dificuldade de uma situação. Ela é a ausência de boa resposta para os desafios de uma situação. No entanto, somos sempre capazes de mudar de situação, de passar para o outro lado do muro. Precisamos apenas de tempo para observá-lo com calma, medir sua altura, deduzir sua espessura. Precisamos de perseverança para suportar a ideia de que serão necessárias várias tentativas, que nos machucaremos no meio do caminho. Mas a vida tem uma estranha benevolência para com aqueles que continuam tentando. Ela sabe que a capacidade de suportar fracassos é condição para mudarmos situações. Pois o fim não virá, nem a catástrofe. O que virá é uma capacidade maior para construir escadas e varas. A vida é capaz de resolver os problemas que ela coloca para si mesma.


Fonte: Revista CULT

domingo, 14 de outubro de 2012

“O DESAFIO DO ANALISTA É PERMANECER HUMANISTA”


Leopold Nosek



Quando o antigo já não existe mais e o novo ainda não se estruturou é que se criam os monstros. Os sintomas desse momento de transição – no qual se encontra a humanidade – estão na pauta dos principais desafios dos analistas contemporâneos. No filme “A Pele em que Habito”, de Pedro Almodóvar, podemos ver o monstro atual, na qual o indivíduo pode trocar de sexo, de pele, fazer filhos de proveta, coisas antes inimagináveis. Sem a tradição não se vive. No entanto, ficar paralisado na tradição também não é viver.
O mundo da atualidade é muito fragmentado, a análise ajuda a dar unidade para pensamentos e sentimentos. Para isso, é preciso tem em mente que o paciente continua um ser humano. Só precisa ser lembrado disso. É um trabalho de recuperação. Não vivemos de construções velhas, portanto é impossível um analista estar ouvindo a mesma coisa. Nossos sentimentos pedem sempre novos versos. Por exemplo, as canções de ninar. São todas iguais. Falam de monstros, não de sossego. Porque a criança tem o medo e o horror dentro dela. E quando encontra uma representação, se sente entendida. Quando se adquirem palavras para o conflito e para a dor, aquilo se circunscreve. Deixa de ser infinito e adquire um tamanho. A partir daí, monta-se a equação e pode-se lidar com isso. Uma boa análise não resolve as equações, mas ajuda a montá-las. E, às vezes, isso é o mais difícil. “A cuca vem já, já, papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar”. É uma equação de desamparo.
Será que o ser humano continuou igual, enquanto o mundo sofreu um avanço tecnológico imenso? Em qualquer idade nos encontramos em transição. Sempre foi assim. Mas, agora, a velocidade é assombrosa. Outro dia, um adolescente me falou uma coisa interessante: que John Lennon nunca tinha visto um computador.
Quando um paciente tem alta, quem define isso: ele ou o analista? Não creio em alta. A alta não faz parte da minha ideia analítica. A cura é uma ideia médica e se baseia em sintomas. O que existe são momentos de desenvolvimento que promovem emancipação. Tem muita gente que quer se aprofundar em si mesmo. Por outro lado, para quem faz análise, esse tipo de exercício reflexivo é vital. Não há como evitar. Porém, será que é possível que alguém consiga fazer tal reflexão sozinho? De fato não criamos nada em isolamento. Prefiro dizer que há pessoas que fecham a porta para esse tipo de prática. Muitas possuem uma dificuldade de olhar para sua interioridade. São pessoas que estão sempre em ação, impedindo o contato com o mundo onírico. Outros têm uma cegueira para o que é conflitivo, contraditório e escuro. O que sabemos sobre a análise é que aquele que a faz fica um pouquinho melhor na comparação com ele mesmo. E esse pouco melhor é inestimável. A família e as pessoas ao lado notam. Claro que, como tudo, análise depende de sorte. De achar a companhia certa para tanto. Nelson Rodrigues dizia que sem sorte você não chupa nem picolé porque vai cair no seu sapato.
Vivemos transformações importantes. Acostumamo-nos a lidar com um aparelho eletrônico e já temos que lidar com um novo. Existe hoje um paradoxo. Vamos viver mais de oitenta anos, mas ficaremos obsoletos profissionalmente, muitas vezes, com 40, 50 anos. Isso gera uma grande insegurança. Há uma enorme concentração de recursos materiais e de expediente para o trabalho para se produzir. Isto influencia nosso modo de viver. Por exemplo, os bancos vão se preocupar com suas ações e não com as hipotecas e o destino dos mutuários. Será que as grandes corporações farmacêuticas são diferentes?
Como consequência, nos deparamos com a falta tempo para o ser humano olhar para a própria humanidade. Não conseguimos construir um acervo onírico, uma personalidade. Sonhar e adquirir um repertório cultural, poético, requer tempo. É isso que necessitamos para dar conta da vida. É um desafio dos analistas de hoje, muito diferente da época do Freud. O sofrimento atual é de outra ordem. A do vazio. O indivíduo sofre, mas não articula um discurso. Quem tem pânico, por exemplo, sequer sabe diferenciar se o sofrimento é psíquico ou corporal. E crescem doenças como a anorexia, obesidade e a bulimia, que há 40 anos eram uma raridade.
A anorexia é a ausência de desejo. Não se sente fome, não há vida sexual. Porque o desejo é visto pelo anoréxico como um perigo de destruição interna. Ele não tem acervo para dar conta. Isso é o desafio para o analista. Como trata-se de um discurso que não se organiza, é impossível realizar o que os analistas faziam antigamente – presente no imaginário popular –, de atribuir significados inconscientes ao que o paciente fala. É necessário a criação de novas narrativas, novos sonhos.
E como o analista deve reagir em uma situação como essa? A ideia é justamente colocar o analista em questão. Estamos diante de um mundo novo. Que implica em novo corpo, sexualidade, ética e moralidade. Além de um sistema jurídico que terá que se adaptar a tudo isso. Em um mundo onde as coisas estão cada vez mais técnicas, o desafio para o analista é permanecer um humanista.
É claro que podemos comemorar as novas medicações, são um progresso. Entretanto, há um exagero. As pessoas não podem mais ficar tristes. Crises e os lutos são grandes oportunidades de transformação, de inventividade, desenvolvimento. Se você não tem tempo do luto, as pessoas tornam-se descartáveis. Como viver sem perdas? O importante é dar um destino criativo para elas.
As pesquisas mostram que uma terapia, de ordem verbal, aliada a medicação, funciona melhor do que só o remédio. Isso é consenso em psiquiatria também. No entanto, existe uma predileção por sucesso rápido. Costuma-se dizer que a psicanálise é demorada. O que ocorre é que entramos em um processo de desenvolvimento. Se a análise for boa você sente os benefícios desde o primeiro encontro.


Pode ser que as pessoas se perguntem qual é a fórmula para se manter são. O objetivo não é, de fato, esse. Eu nem pretendo isso. Não me apresento assim. Não tenho cara de são e não faço a menor questão de ser. E não sei mais do que a pessoa que está lá comigo. Só tenho um ouvido disciplinado para aquilo. Para ser analista, tem que ter problemas suficientes para não conseguir ficar quieto.
Com o a falta de tempo para construir um acervo que dê conta da sua humanidade, o indivíduo apela para as receitas prontas. Porém, vivemos em tempos de transformação. Quando o velho não existe mais e o novo ainda não se estruturou, criam-se os monstros. São momentos em que ainda não há um novo sonho, uma referência poética. Em épocas como essa, em que não existe tempo de esperar até que se organize um novo sonho, uma nova referência poética e cultural, é que as pessoas se socorrem de coisas estabelecidas.
Com o advento da internet, a esfera do público e do privado mudou muito, com o Facebook e similares, por exemplo. As pessoas acreditam que estão expondo a intimidade ali. Mas, na verdade, não. Mudou o critério de intimidade. O que é íntimo, de verdade, as pessoas não mostram porque quando é íntimo é conflituoso. O sexo pode ser íntimo para uma pessoa e não para outra. E parte da graça do sexo é que é tremendamente conflituoso e angustiante. Senão, seria como comer bife. O medo da perda, da invasão, do excesso, estão sempre aí. O número de fantasias, medos e expectativas que acompanham a sexualidade é enorme, e aí é que está a graça.
Desta forma, as pessoas estão atrás de uma felicidade, porém, essa felicidade da qual se fala é uma bobagem. Uma coisa é viver criativamente, viver bem. Viver feliz é um sonho infantil. A ideia de não ter conflitos, problemas, é uma negação da realidade. Isso não é viver feliz, é ter uma anestesia para uma parte da vida. Uma pessoa que acredita nisso não vive as crises dos filhos, as questões amorosas, os lutos. Pensa em soluções. Chamo essas pessoas de “solucionáticas”.
Para resumir, pode se dizer que o maior desafio para o analista hoje é que cada vez mais o tratamento é bipessoal. Na sala de análise tudo pode acontecer virtualmente. O analista tem que ser corajoso e participativo. Ter audácia. Tem que ter o conhecimento. Esta é a sua ética. Estamos todos em questão, o paciente, o analista e a análise. Cabe a brincadeira “vamos olhar seus problemas de frente: pode se deitar”.

Texto adaptado

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A FARSA DO PATINHO FEIO


Pois é. Como vocês vão ver a seguir, pretendo acabar com um mito tão querido, e não estou nem um pouco arrependido. Trata-se da história do Patinho Feio. Ela é uma mentira. E das grossas. Trágica. Terrível.Vou explicar.

O Patinho Feio (cuja história todo o mundo conhece) é feio não por ser feio. É feio porque não se parece em nada com os outros patos. Só nos contornos, e mesmo assim de longe. Ele é desengonçado, pescoçudo, enorme de gordo, totalmente disforme segundo os padrões de beleza da Patolândia. Ele é horroroso, e por isso todo o mundo (com toda a razão, claro) o esculhamba, o abomina, o cobre de impropérios, o despreza e o humilha. O tempo todo. Ninguém tem a menor simpatia nem a menor paciência para com o Patinho Feio. Ninguém gosta dele, e principalmente ele mesmo, de tanto que os outros falam. Todo o Mundo dos Patos o detesta.
E assim vive ele, pária entre os patos, sempre se escondendo, sempre mal, sempre fazendo o possível para se parecer com um pato normal - só, digamos assim, um pouco maior...
Mas o que tem isso de tão horrível - ser grande? Ele tenta, tenta, mas não consegue entender. Afinal, é tão parecido...
Que coisa horrível. Que destino cruel. Ai, pobre Patinho Feio, que todos rejeitam.
Até que um dia...

Bem, aqui tenho que interromper para dizer que o que está aí acima é tudo verdade. Essa parte da história é a pura verdade. O Patinho Feio existe - e não só existe, como há multidões deles andando por aí para todo lado. Você certamente conhece vários. E, cá entre nós, não é impossível que você próprio/a seja um/a.
Porque são muitos, muitos mesmo os Patinhos Feios - e convivemos com eles o tempo todo. Mas já não damos a menor bola. Eles são feios, são burros, são esquisitos, são ignorantes, são sujos, e por aí vai. Ou então são apenas tímidos, mas tão tímidos, que a gente fica logo horrorizado - não com seu aspecto, mas com sua repulsiva personalidade. Argh... Mas se a gente ficar longe quase que não os nota, porque todos acham que é assim mesmo, os patinhos feios são feios porque assim quis o Destino, ou Deus, ou a Genética, sabe-se lá por que motivo.
E por que são tão feios? Por que são tão horríveis, se nasceram praticamente iguais a nós, os normais? Como se explica isso?
Bem, há uma explicação, e ela é tão simples que você vai achar que estou brincando.
O Patinho é feio porque certa vez ele se olhou no espelho - e nunca mais conseguiu ser ele mesmo.
Bem, calma. Deixe-me explicar. Como dizem os cabalistas, o que é simples nem sempre é fácil. 

O Patinho não é feio. O problema é que ele se olhou num espelho que estava, digamos, enguiçado. A gente, quando olha num espelho, vê a cara da gente. Imagine, porém, que você acorde um dia desses, depois de uma daquelas noites kafkianas - que fazem o cara acordar e descobrir que virou uma barata. Você vai ao banheiro para lavar o rosto e se pentear (no mínimo isso, não é?), e o rosto que aparece no espelho nesse momento tem um nariz enorme e torto, um olho redondo e vermelho feito um tomate, e o outro totalmente puxado, parecendo uma linha preta comprida entre a bochecha e a testa. A testa, então, parece um daqueles papelões com cones prensados de embalar ovo... E a boca? Quatro dentes faltando, os outros horrivelmente marrons e tortos, e os buracos dos que faltam gritam em tinta preta entre um dente bambo e outro... Ah, e ainda tem a pele do rosto - toda coberta de feridas, pequenas, grandes, horrorosas.
Imagino que você vai se beliscar para ver se já acordou ou se ainda está no meio de um pesadelo. Mas não vai adiantar muito - a cara do monstro continua a olhar pra você lá do espelho, e não há nada que você possa fazer.
E agora?
E agora, se vira. Vai ter que viver sendo isso aí o resto da vida. Você virou um Patinho Feio, o que fazer?
Amigos, não estou brincando. Tudo isso acontece na vida de seres humanos iguaizinhos a nós. Tudo isso que contei acima é a mais pura verdade.
Só que com alguns detalhes a mais que ainda não deu tempo de contar.
Primeiro, o espelho em que aquela pessoa olhou não é daqueles de vidro coberto de prata do outro lado. Não, esse tipo de espelho nunca dá uma imagem assim.
O espelho de que estou falando era de carne e osso. E tinha nome: chamava-se Mamãe! E a pessoa da história não era um adulto como eu ou você: era uma criança, uma criança pequena. Que um dia olhou o rosto da mãe - o único espelho que para a criança pequena significa alguma coisa (nos outros espelhos ela é até capaz de se reconhecer, a partir de certa idade, mas isso, para ela, não quer dizer nada).
Nesse espelho muito especial (a Mamãe) em que a criança se olha ela não apenas vê a si mesma, ela também avalia a si mesma a partir do que viu. Ela não vê simplesmente uma imagem: ela vê um diagnóstico, uma sentença, um Destino. Se um dia uma criança pequena olha para o rosto da mãe e o vê diferente - um rosto parado, sem expressão, ou carrancudo, fechado, escuro (porque os olhos estão apertados e a boca fechada esconde os dentes), ou às vezes enrugado por sofrimentos terríveis, e até vazando água - que a criança não sabe ainda chamar de ‘lágrimas', essa imagem espantosa da Mamãe mostra à criança que ela vale - o que ela é. É isso que o rosto da Mamãe está mostrando.
 A Mamãe que está olhando desse jeito para a criança vê um monstrinho, um pedaço de lixo, uma coisa horrorosa. É isso que a criança vê: o seu reflexo no rosto da mãe. E ela entende, imediatamente, que é isso que ela é, porque o rosto da Mamãe não mente: o que a Mamãe vê quando estou na frente dela é o que eu sou, é isso que a criança entende.
Pronto: a criança acaba de virar um Patinho Feio.
Claro, essa imagem não dura muito. Logo logo a Mamãe está com outra cara, a mesma cara de sempre, e a criança esquece aquele horror e volta a sorrir e a se sentir o máximo - porque é isso que a Mamãe sente quando me vê, pensa ela - como sempre.
Então, se o rosto diferente não dura muito, nada acontece. Some o Patinho Feio, volta a criancinha linda, maravilhosa, feliz.
Mas quando o rosto, em vez de voltar logo ao normal, continua a ter essa ‘cara' por um longo tempo, o Patinho Feio não morre mais. Se a Mamãe está de luto (que logo passa), ou está doente (e logo se cura), ou está deprimida porque algo grave aconteceu, e algum tempo depois volta ao normal, ou apenas viajou e demorou demais para voltar, nada disso abala a certeza da criança: Sou um Patinho Feio. Porque a criança não tem noção de que alguma outra coisa possa causar essa transformação no rosto da mãe - a não ser ela mesma, a criança. Não cabe na cabecinha da criança que as coisas fora dela tenham outro motivo para ser assim ou assado, a não ser algo que ela, a criança, tenha feito ou deixado de fazer. Aquilo que ela se acostumou a ver virou outra coisa, e de agora em diante aquela que ela costumava se sentir também virou outra coisa: Um Patinho Feio.
E tem algo mais: Como consequência dessa catástrofe surge um ‘efeito colateral' terrível, que muita gente terá dificuldade de compreender. Surge um tipo de culpa muito horrível, muito forte, muito assustadora. A culpa de ter provocado, na Mamãe, um sentimento tão horroroso que, inevitavelmente, fez a criança virar um Patinho Feio, por se sentir para sempre rejeitada por aquela que, até então, era a sua Deusa Protetora.
Alguns acham que tudo isso pode ser explicado pela ideia de que, para essa criança, a Mamãe morreu, e a deixou sozinha, ao léu, entregue às intempéries ou às baratas, como se diz, ou jogada fora, como também se diz. Caim deve ter se sentido assim depois que matou Abel, quando Deus lhe disse: ‘Sai da minha frente!'. E Caim diz, explicitamente, como conta a Bíblia: ‘Como viverei agora, se minha culpa é pesada demais para suportar?'
A diferença em relação ao Patinho Feio é que Caim sabia o que tinha feito. Só não sabia (naquela época ainda não se sabia disso) que era algo hediondo, abominável, imperdoável. Descobriu somente depois que aquilo era um ‘crime'. Ele inventou o assassinato, e só depois se deu conta de que teria sido melhor ficar em casa naquele dia.
Mas, e o Patinho Feio, o que fez para merecer o que passou a viver? Ele nunca soube. E não viria a saber nunca, se dois sujeitos, lá pelas tantas, não tivessem pensado coisas que os levaram a ‘desvendar o crime'.
Bem, não foi um crime. O Patinho Feio não cometeu crime algum, é claro. Cometeu apenas um erro - um erro de avaliação. Mas nem se pode dizer que foi realmente um erro, porque ‘erro' é algo que é diferente do que sabemos ser o ‘certo', e quando não sabemos o que é o certo, numa dada situação, como saber o que está ‘errado'? Como evitar o ‘erro' se não sabemos fazer o ‘certo'? Impossível. Aqueles dois sujeitos, porém, com a contribuição de um terceiro, acabaram descobrindo o que aconteceu para que o Patinho se tornasse Feio.
Um deles (o terceiro), um tal de Lacan, certo dia se deu conta de que os bebês de certa idade, quando mostramos a eles um espelho, um espelho comum, se reconhecem na imagem que vêem. E o fato é que nenhum animal da mesma idade consegue fazer a mesma coisa. (Hoje se sabe que alguns poucos animais se reconhecem sim - um deles o golfinho - mas isso não invalida o que Lacan descobriu e divulgou).
O outro, o que mais contribuiu para desvendar o ‘Crime do Patinho Feio', (vamos chamá-lo assim porque frases dramáticas vendem mais, qualquer jornalista sabe disso desde que entra para a faculdade) foi um tal de Winnicott, que disse três coisas: A) quando a mãe deixa de atender a tempo à necessidade emocional de uma criança (e ele chama a isso de ‘falha da mãe'), a criança se defende - e ao se defender deixa, momentaneamente, de se desenvolver. O rosto da mãe, a expressão facial da mãe funcionando como espelho para a criança (um aperfeiçoamento que esse tal Winnicott introduziu na descoberta daquele outro, o Lacan), deve passar para a criança, tanto quanto possível, uma imagem positiva da mesma, um sinal muito claro de que ‘Mamãe te ama', o que tranquiliza a criança e lhe proporciona bem estar. Caso contrário, a criança está lascada. Não se desenvolverá emocionalmente, continuará se sentindo um filhote de bicho perdido na selva. B) quando uma criança tem a sensação de que perdeu o contato emocional protetor com a mãe ocorre um terremoto de magnitude 9 (a máxima possível, como se sabe) na ‘alma' da criança, e essa é, a pior de todas as ‘falhas' que a mãe pode cometer - mesmo que não tenha nenhuma intenção e nem imagine que desse modo a criança se sentirá para sempre rejeitada. C) Quando ocorre esse terremoto, a criança nunca mais será a mesma, a não ser que alguém faça alguma coisa muito especial (algum tipo de relacionamento muito especial) para minimizar o estrago.
E o terceiro, chamado Green, juntou tudo isso e criou algo a que deu o nome de ‘Síndrome da Mãe Morta', pela qual, diz ele, a mãe não precisa ter morrido de fato para que a criança assim pense, e passe a se sentir para sempre marcada pela ‘marca de Caim', uma ‘ferida narcísica' (acho que foi isso que ele disse) difícil, muito difícil de ser curada.
Assim sendo, podemos dizer agora que o Patinho Feio sofre de... orfandade. Mesmo que, na verdade, não seja órfão coisa nenhuma. Ele é ‘feio' porque se sente órfão - e o pior é que se sente órfão apesar de a Mamãe, como fica bem claro mais tarde, ainda estar viva, e por isso se sente péssimo apesar de já estar tudo bem. É que para ele, agora não mais uma criança feliz mas um Patinho Feio, essa vivência traumática é tão violenta, tão, digamos, ‘real', que todo o resto, inclusive o tudo bem que surge depois da ‘volta' da Mamãe de sempre, nunca mais parecerá tão verdadeiro, tão confiável quanto era antes. Então, na vida dessa pessoa, teremos duas fases: A.T. (antes do trauma) e D.T. (depois do trauma). É como se a criança ‘nascesse de novo', mas desta vez nascesse morta (porque, se a Mamãe ‘morreu', a criança, cuja vida girava em torno dela, ‘morre' também.)
É que a ferida - seria melhor, até, dizer ‘fratura' e não ‘ferida' - não se cura assim facilmente. Precisa que seja colocado um ‘gesso' à sua volta (por isso achei melhor dizer ‘fratura') por bastante tempo, até que o lugar fraturado volte a soldar-se e não doa mais quando tocado. É claro: graças a Winnicott e Green  sabemos, hoje, como e onde colocar o gesso. (Nesse ponto a contribuição de Lacan foi pequena, em comparação com a dos outros dois - mas ele acabou se emendando: escreveu algo importantíssimo sobre isso no fim de sua vida - algo que chamam de ‘o Último Ensino de Lacan!) Aos ortopedistas que me lêem vou logo avisando: gesso em osso do corpo é fácil de colocar. Mas em osso da alma... Nem tentem, não vai dar certo. Só psicoterapeutas conseguem fazer isso, e nem mesmo todos eles. Nada impede que vocês aprendam psicoterapia - mas isso também não vai ser muito fácil... Mas se quiserem, serão muito bem vindos ao clube.
Voltemos então ao Pato Frio, ou, desculpem, ao Patinho Feio. E agora vou falar novamente da sua História, o ‘conto de fadas' (entre aspas porque esses contos foram, todos, criados por autores desconhecidos perdidos nas vastidões do passado, enquanto esta nossa história foi escrita há uns cento e poucos anos por um contador de histórias dinamarquês chamado Hans Christian Andersen - que por sinal sofria desse mesmo problema que ele tão bem descreveu... além do fato de que ele, Andersen, era - fisicamente - feio pra valer...)
Quando falei, no título, que essa história era uma ‘farsa', eu não estava me referindo à parte que descrevi e expliquei até aqui. Essa parte da história é a pura verdade, e tenho vários exemplos de tratamentos em consultório que confirmam, plenamente, tudo que eu disse até aqui. A ‘farsa', então, não está nessa primeira parte da história. Está na segunda parte, na ‘solução' que Andersen propôs para resolver a questão, e também a sua narrativa.
Depois de contar como o Patinho era feio, como sofria, como se sentia rejeitado, desamparado e infeliz, Andersen teve um lampejo de gênio e bolou uma ideia por isso mesmo genial: O Patinho só era feio porque... porque não era pato. Pois é. Não era pato coisa nenhuma. Era um outro bicho, e o problema só se resolveu quando ele descobriu essa grande verdade. Pois no conto de Andersen acontece que o Patinho Feio, um dia, cansado de tanto sofrer, simplesmente pega e vai embora. Vai para o exílio. Sai de onde vivia e começa a nadar, nadar, nadar, cada vez mais longe, cada vez mais distante da Patolândia onde era tão infeliz. Melhor viver sozinho que viver na desgraça, pensou ele. E foi nadando para cada vez mais longe. Até que...
Pois é. Aí entra o ‘até que' que dá um final feliz à história, mas que, na verdade, a estraga completamente e a transforma na tal ‘farsa' de que falei.
E o final feliz é assim: ‘Muito tempo depois de afastar-se do lugar onde viviam os patos, nosso herói viu ao longe, no lago, um grupo de aves bem diferentes, que pareciam patos, mas não eram patos. Foi se aproximando delas, escondendo-se por entre as folhagens da margem, e em certo momento sentiu um choque percorrer todas as suas penas, da cabeça até o fim da cauda. Essas aves, que ele nunca tinha visto antes, eram lindas... eram maravilhosas... eram muito, mas muito mais belas que os patos com os quais conviveu até aquele dia. Fascinado pelo que via, o Patinho continuou a nadar até que, levado por sua fascinação, esqueceu-se de continuar escondido e acabou avistado por uma delas. E qual não foi sua surpresa, seu susto, seu espanto infinito, quando a ave que o avistou veio calmamente nadando em sua direção, com um sorriso no bico e um olhar de grande satisfação por vê-lo ali. Ele, petrificado, não conseguiu mover-se para fugir, mas não foi necessário: ao aproximar-se mais um pouco, a ave dirigiu-se a ele com a voz mais carinhosa do mundo e lhe disse: ‘Olá, filhote, de onde você vem? Onde está a sua mãe? Eu não o conheço, mas posso ajudá-lo a voltar para casa, porque você deve estar perdido por aqui...'
Ouvindo tais palavras, o Patinho percebeu que não havia motivo algum para sentir medo, e pela primeira vez na sua curta vida ele se sentiu acolhido, querido, amado. E sua alma inundou-se de calor e de prazer, coisas que ele também nunca tinha sentido até aquele momento.
Bem, para encurtar, o Patinho contou a sua história, agora para todas as aves maravilhosas, e todas elas caíram na mais sonora e alegre gargalhada... ‘Mas como você achava que era um Pato se você é um de nós, e nós não somos patos, nós somos Cisnes!!!', gritaram eles, felizes da vida, e logo armaram uma grande festa e dançaram em volta do Patinho, que agora recebeu o nome de ‘Cisninho Lindo', e nunca mais foi infeliz em sua longa vida.'


É assim mesmo que termina a história do Patinho Feio? Não sei. Esse final feliz eu acabei de inventar agora mesmo, porque já faz tanto tempo que li essa história que não me lembro mais de como Andersen a concluiu. Mas não importa. Os fatos básicos - o esqueleto da narrativa - está aí, eu só inventei os adjetivos e a dinâmica em volta do esqueleto.
E é justamente aí que está a farsa, agora sem aspas. A farsa está no fato de que ‘cisnes', ainda que sejam simples animais, como todos nós, não são, na verdade, ‘simples animais', porque há todo um ar meio ‘mítico' em torno deles. Eles são tão ‘simples animais' como, por exemplo, os grandes artistas, os grandes estadistas, os grandes heróis, os grandes esportistas, os grandes intelectuais e os grandes canalhas são ‘simples seres humanos'. Não são. São figuras quase literárias, são ‘de outra espécie'. Nenhum de nós os percebe com ‘iguaizinhos a nós'. Os cisnes têm esse ar de ‘estrelas de Hollywood' entre os bichos. Mais, muito mais, que os próprios pavões e as famosas ‘aves do Paraíso'. E isso, e agora entro eu com a minha implacável análise do texto de Andersen, é um desastre.
Por quê? Por levar ao erro, um erro trágico, um erro potencialmente fatal, todos os Patinhos Feios que vivem entre nós. Andersen tentou, e eu acredito nisso, com sua enorme compaixão (era enorme mesmo, segundo um livro que li na minha infância), proporcionar aos Patinhos Feios da vida um pouco da esperança que perderam - no momento em que perderam a sensação íntima de terem uma mãe e de serem alguém digno de ser aceito pelos outros. Assim, imaginou ele, (mas obviamente sou eu que imagino o que ele imaginou...), os Patinhos Feios da vida real tratariam de jogar fora a roupa de Patinho Feio e voltar ao convívio social com a sua ‘verdadeira identidade', aquela que ficou perdida quando se olharam no ‘espelho enguiçado', ou, na história por ele escrita, quando o ovo de cisne do qual nasceram foi parar, por acaso, no ninho de uma pata. E isso - essa forma de contar a história - foi um desastre, um terrível desastre - porque o que Anderson disse, nas entrelinhas de sua história, foi algo que, em vez de proporcionar a esperança que ele pretendia dar aos pobres infelizes, ao contrário, retirou deles a esperança ínfima que ainda lhes restava.
Porque a mensagem real que ele lhes enviava dizia: ‘Você não é essa figura horrorosa que pensa ser. Você é, na verdade, um ser maravilhoso, um nobre no reino animal. Você é filho de duques e marqueses, os cisnes, não de plebeus comuns e simplórios, os patos. E quando você descobrir isso, toda a sua infelicidade sumirá como que por encanto. Você acordará do pesadelo e se perceberá magnífico, e nunca mais terá medo de se olhar em nenhum espelho, nem de ser rejeitado por ninguém.'
E agora vejam vocês, caros leitores: uma vez lida a história de Andersen, que Patinho Feio poderia continuar tendo alguma esperança de um dia se livrar do sofrimento? Como tornar-se um Cisne, belíssimo, da noite para o dia? Como tirar a horrenda fantasia de Patinho Feio e encontrar a roupa própria para um Super-Star, aclamado e adorado pelas multidões? Se havia, antes, alguma esperança de um dia tornar-se um ser humano comum, normal, decente, essa esperança deve ter ido para o lixo diante da ideia de que o certo seria tornar-se um astro, uma beldade, um ou uma escritor/a, um/a ídolo/a da TV ou do cinema, e assim por diante. Quem, em sã consciência, se percebendo sub-humano, nutriria a esperança de transformar-se num super-humano sem acabar, com certeza, no hospício?
E então, meu caro Andersen, sou obrigado a dizer: Você foi maravilhoso, você foi genial, você foi um ser humano de primeira grandeza, generoso como poucos, mas NÃO ENTENDIA NADA DO QUE ACONTECE NAS PROFUNDEZAS DA ALMA HUMANA. Conhecia só a sua superfície. Por isso achou que resolveu o problema, quando na verdade você o tornou muito pior do que já era. Você deve ter imaginado que resolveu o problema dos pobres seres humanos que se sentem Patinhos Feios. Mas na verdade você conseguiu apenas inventar a assim chamada ‘Literatura de Auto-Ajuda'.
Triste, caro Andersen, muito triste tudo isso. Agora eu, que descobri a sua mancada, terei de reescrever a história que você escreveu e contá-la da maneira certa, com um final que, em vez de muito feliz, é apenas possível. Porque, como diz o ditado popular, para deixar de ser um Patinho Feio mais vale ter um marreco na mão que dois cisnes voando...
E a maneira certa de contar a história é: O Patinho Feio acabou descobrindo que não era feio coisa nenhuma, mas se achava feio porque tinha perdido a esperança em se tornar grande e forte como os outros, e porque se achava rejeitável por causa da culpa que sentia, a culpa de ter feito algo errado (ou ter nascido ‘errado') e causado aquele desastre todo. Foi um tal de Ferenczi que me ajudou a compreender isto, quando disse que ‘as crianças se sentem infinitamente culpadas pelas coisas ruins que lhes acontecem'. E aquele sujeito de antes, o tal Winnicott, explicou: Quando algo ruim acontece a uma criança, ela se sente muitíssimo mal, e por isso acredita que esse mal-estar é ela própria - ainda não distingue as coisas que lhe acontecem daquilo que ela realmente é, porque ela ainda não é o que ela realmente é... Por isso, se ela se sentir desse jeito um número grande demais de vezes, ou por um tempo longo demais, ela acabará achando que ela é isso, esse ser cheio de coisas ruins dentro dele, e daí...
Aliás, veja você: há uma outra história, um outro conto de fadas, desta vez verdadeiro, vindo da Idade Média, ou quem sabe da própria Pré-História, que conta algo muito parecido, mas com personagens bem diferentes. É a história do Sapo e do Príncipe, que você deve ter conhecido em sua vida:
‘Era um vez um Príncipe que, ao nascer, foi amaldiçoado por uma Bruxa Malvada, que justamente por ser uma Bruxa Malvada foi a única a não ser convidada para a grande Festa do Nascimento do Herdeiro do Trono Real. A Bruxa, furiosa, transformou o lindo Bebê Real num horrível Sapo Fedorento, e disse: ‘Eu te amaldiçôo e te transformo num Sapo Fedorento, e desse destino só escaparás se um dia uma Linda Princesa aceitar beijar-te com sua Linda e Perfumada Boca Real.' E sumiu.
‘O pobre Sapo Fedorento percorreu todos os reinos vizinhos, procurando a Linda Princesa que o beijasse com sua Linda Boca Real, mas nada: todas as Princesas que o viam fugiam apavoradas. Até que, no menor dos Reinos vizinhos ao seu, a Princesa Real o viu e, em vez de fugir, tomou-o na mão e lhe deu um grande beijo com seus Reais Lábios Vermelhos. E o Sapo Fedorento transformou-se num lindo Príncipe Des-Encantado, e eles se casaram e viveram felizes para sempre, e tiveram muitos Sapinhos... ooops, quer dizer, Principezinhos...'
Esta é a história que precede, no tempo histórico e no tempo emocional, a do Patinho Feio. Antes de tomarem conhecimento do conto sobre o Patinho Feio, todas as crianças amaldiçoadas pela Bruxa Malvada (a Mamãe de cara feia) se sentem o Sapo Fedorento, e em vez de pensarem em um dia se tornarem Cisnes, sonham em um dia virarem Príncipes (ou Princesas, depende da pessoa). Isto porque os contos de fadas, como já foi demonstrado, tiraram sua inspiração das fantasias inconscientes que todas as crianças fazem na infância (e não só as crianças, e não só na infância). Por isso, o desejo de deixar de ser Sapo e tornar-se logo Príncipe é um dos temas favoritos de todos os que sofreram traumas na sua infância.
Mas trata-se, aqui também, de um desejo fadado ao mais amargo fracasso. Porque ‘Sapos' e ‘Príncipes' não são seres comuns, de carne e osso, mas mitos, mitos mesmo. Um sapo é apenas um bicho, é claro, mas ‘O Sapo' criado pela Bruxa Malvada não é um bicho, é um mito. Um mito de feiúra, de algo asqueroso, repugnante, de algo que jamais poderia ser visto com bons olhos. E por mais real (no sentido comum da palavra, não no seu sentido majestático) que seja um príncipe ou uma princesa de verdade, como aqueles tão ‘plebeus' da Inglaterra, ou aquelas tão piradas de Mônaco, ‘O Príncipe' dos contos de fadas é muito mais mitológico, onipotente, ‘divino', que qualquer ser humano de carne e osso.
Há muito que o paralelo entre essas duas histórias está na minha cabeça, e só agora consegui colocá-lo no papel, isto é, na tela e na memória do computador. Eu achava que os pacientes com problemas desse tipo eram de duas espécies diferentes: Os que ‘acreditavam' no conto de fadas propriamente dito, do Sapo e do Príncipe, e os que ‘acreditavam' na história criada por Andersen, do Patinho Feio e do Cisne. E achava, também, que era muito mais fácil ajudar estes últimos que àqueles primeiros. Porque o pato e o cisne são seres de carne e osso, e não há magia alguma em sua história, enquanto a história do Sapo e do Príncipe é toda ela da ordem do sonho, da fantasia onipotente, e seria muito mais fácil encaminhar uma pessoa que se sente pato ao seu verdadeiro lugar, à cidade dos cisnes, que ajudar um ‘sapo' a se tornar um ‘príncipe'.
Mas hoje vejo que eu estava errado: a tarefa, em ambos os casos, é meio inglória, pelos motivos que expus um pouco antes. O trauma da criança, na verdade, consiste em um encontro com aquilo que Lacan chamou de ‘o Real', que nada tem a ver com a nossa realidade cotidiana. O ‘Real' é aquilo que está além da realidade, fora da realidade normal que vivemos no dia a dia. O ‘Real' - um terremoto, uma bala de canhão ou de revolver, uma avalanche, um acidente aéreo - não é abarcável, digerível, ‘entendível' pela nossa consciência. E ele tem um certo cheiro - o cheiro da morte! E se alguém sobrevive a um encontro com o Real, fica marcado para sempre, e nunca mais a ‘realidade compartilhada', como a chamou Winnicott, essa que vivemos todos os dias, essa na qual acreditamos que é possível viver, será a mesma. Os que sobreviveram aos campos de concentração nazistas são um exemplo. Sobreviventes de acidentes aéreos são outro - muitas vezes continuam os mesmos, mas perdem a capacidade de assumir responsabilidades: dão a impressão de que voltaram a ser crianças, embora conservem suas outras características adultas.
A tarefa mais importante da mãe, diz Winnicott, é manter a criança longe da ‘angústia impensável', expressão que ele cunhou para designar tudo isto de que estou falando aqui. E quando a mãe falha nessa tarefa, porque ela é imatura ou porque algo lhe aconteceu, temos nós, os psicoterapeutas, que entrar em ação e, para ter algum êxito no trabalho, nos colocar à disposição do paciente e não fazer nada!!! Não interpretar, não ‘intervir', não aconselhar, não tentar consertar coisa alguma. Temos que concordar, aceitar, explicar o que está acontecendo para acalmar o paciente, conversar abobrinhas, bater papo furado, ou ficar quietos, tudo de acordo com o que o paciente pode fazer ou pode aceitar que façamos. Precisamos aprender a conviver com essa pessoa sem contrariá-la, ou contrariá-la tão pouco quanto possível. O que eles precisam é que estejamos lá, para que eles possam recuperar a crença de que viver é possível e de que ‘o Real não vem aí'. Por isso Winnicott diz que ‘aqueles que têm medo de algo que poderá acontecer, é porque estão com medo de algo que já lhes aconteceu.' (A meu ver, é por isso que tanta gente tem essa espantosa facilidade de acreditar nas teorias do ‘fim do mundo': é porque já o viveram ‘em algum lugar do passado', ótimo título de um belo filme, e que aqui me serve maravilhosamente para dar nome ao que eu pretendia dizer. Mas como o que vivenciaram aconteceu numa época em que não tinham ainda palavras para nomeá-lo, não têm como se lembrar disso como fato. Só a sensação que sentiram continua viva, mas sem nenhum sentido compreensível. Por isso, qualquer ameaça no futuro é apanhada no ar, pois ela, ainda que de modo equivocado, dá sentido à sensação incompreensível.)
É claro, ainda segundo Winnicott, que haverá no tratamento dessas pessoas um segundo tempo, um tempo no qual já não precisaremos ter tanto cuidado em ‘não fazer nada'. Nessa outra fase poderemos discordar, brigar, contrariar, e vai ser até bom fazê-lo, porque a ‘criança' que está à nossa frente já não é mais tão criança assim, já sabe que viver é possível, e precisa apenas completar o percurso do amadurecimento emocional, da integração que se processa em seu interior para ficar, digamos, ‘pronta'. Assim: um paciente que sofre desse problema é uma criança doente. Primeiro, então, devemos ‘curar' essa criança doente - capaz, agora, de completar o percurso do desenvolvimento emocional inicial (que Winnicott chamou de ‘primitivo'). Depois disso fica mais fácil, porque temos apenas que ‘criar' uma criança saudável para que se torne adulta, mas aí já contamos com sua inteligência, com sua criatividade, com sua capacidade de ligar as coisas, e assim por diante. É verdade que em casos muito graves esse segundo tempo pode demorar muito para chegar. O fato é que não adianta relacionar-se terapeuticamente com alguém sem perceber claramente em que ‘idade emocional' ele está. E para saber é preciso recorrer à obra de Winnicott e tratar de entender o que ele disse (pois de nada adianta saber o que Winnicott disse sem entender o que ele quis dizer...)
Então, caro Andersen, não fique triste. No fim das contas, você fez tanta gente feliz com suas histórias que o fato de não ter conseguido salvar os Patinhos Feios não faz de você um escritor fracassado. Não se culpe por não saber mais do que sabia sobre a alma humana. Não era possível saber, na sua época, o que sabemos hoje em dia. Você ficaria espantado, se pudesse dar um pulo aqui no presente, ao ver quantas coisas foram descobertas (e não me refiro às que foram inventadas, nessas você nem conseguiria acreditar...) do seu tempo até agora. Além do mais, nem o grande Freud sabia dessas coisas que Winnicott descobriu, e Green elaborou. A humanidade caminha desse jeito mesmo, vai conhecendo o seu caminho à medida que o percorre, como diz aquele poeta espanhol (‘Caminante, no hay caminos, se hacen los caminos al andar...)
Então sossegue. Está tudo bem. Tudo que eu disse acima a seu respeito não era com a intenção de deixar você chateado, e me desculpe por isso. Era só com a intenção de deixar os meus leitores interessados. E sabe como são as pessoas: adoram ouvir coisas horríveis sobre os outros... Bem, é isso.
Mas preciso acrescentar duas coisas importantes a tudo isso, para completar o que tentei explicar. Primeiro, nem sempre a ‘Mamãe' que aparece na história é a mãe verdadeira, biológica, da criança. Há algum tempo começou-se a falar de ‘figura materna' para indicar a pessoa que não é a mãe verdadeira, mas na qual a criança confia.
Segundo: às vezes a ‘figura materna' não falha por fazer uma cara feia, ou por ausentar-se por um tempo mais longo do que a criança é capaz de suportar. Às vezes ela falha porque morre. E aí temos o problema multiplicado, em sua gravidade, por um número inversamente proporcional à idade da criança. Ou seja: quanto mais nova a criança, pior fica. É verdade que a ligação entre a criança e a mãe não surge imediatamente após o nascimento. Leva algum tempo para surgir e fortalecer-se, e não importa agora quanto tempo isso leva. O importante é que, uma vez estabelecida essa ligação, alguns poucos meses depois do nascimento, o seu rompimento é um trauma insuportável, que provocará danos à própria estrutura emocional da criança. Ela terá dificuldades enormes de se desenvolver psiquicamente, e levará a vida sempre com a sensação de que tudo que acontece é apenas ilusão, porque a verdade é: O que havia de essencial morreu. Isso acarreta problemas gigantescos e dificuldades enormes para a criança em questão. Sua vida será, inevitavelmente, muito complicada. Embora seja possível ajudar uma criança que passou por essa catástrofe, essa ajuda levará muito tempo para acontecer, e sempre sobrará uma sombra pairando sobre a alma da pessoa. A ajuda não é impossível, e muitas vezes permite à criança que cresceu passar a viver de um modo bem melhor que antes. Por isso seria um absurdo não tentar, porque mesmo um êxito apenas parcial melhoraria muito a qualidade de vida da pessoa ajudada. Mas é bom não esperar milagres: a marca da fratura não desaparecerá, o que me leva a concluir dizendo que nenhum patinho feio vira Cisne - vira apenas gente, e nenhum Sapo Fedorento/Sapa Fedorenta vira Príncipe ou Princesa - vira apenas uma pessoa legal capaz de curtir a vida, capaz de gostar e de ser gostada, capaz de produzir muita coisa e de, um dia, achar ótimo estar viva.