quarta-feira, 11 de julho de 2012

POR QUE A PSICANÁLISE, HOJE?



Renato Mezan


É difícil acreditar, mas a Psicanálise já foi considerada perigosa, e em primeiro lugar por aqueles que a praticavam nos seus inícios. Ao avistar a Estátua da Liberdade do navio que os levava aos Estados Unidos, Freud teria sussurrado ao ouvido de Jung: “eles não sabem que nós lhe trazemos a peste.” Esta história foi contada por Jacques Lacan, que a teria ouvido do próprio Jung. Mesmo que a tomemos minuciosamente, já que não existe qualquer outra menção a ela, a frase faz sentido no contexto da época: a correspondência entre o fundador e seus discípulos, naqueles anos heróicos, formiga de referências a “inocular” as idéias freudianas na Psiquiatria e no público em geral, como se fossem um vírus capaz de abalar as colunas da sociedade. São metáforas, por certo, mas que deixam entrever o potencial subversivo daquelas doutrinas.


A direita conservadora também considerou a Psicanálise perigosa, chegando os nazistas a bani-la sob o argumento de que era mais uma das artimanhas judaicas para envenenar a civilização ariana. A Igreja condenou-a por sua análise da religião; os comunistas, por trazer a marca do individualismo burguês – razão pela qual foi proscrita da União Soviética e dos seus satélites.
O que chocava tanto nas idéias de Freud? Na época, a tese da sexualidade infantil, e de modo geral a importância concedida aos fatores sexuais na determinação de comportamentos aparentemente muito distantes de Eros. Hoje em dia, terminado o século XX – que já foi chamado de “o século de Freud”, pela influência que suas idéias tiveram na visão do homem ocidental acerca de si mesmo, na literatura, no cinema, nas artes, nos costumes, na educação, na Psicologia – hoje em dia já não parece chocar ninguém a existência do inconsciente ou do complexo de Édipo, assim como o peso das fantasias eróticas na vida cotidiana de todos nós.


De “perigosa”, assim, a Psicanálise dificilmente seria acusada hoje. É mais comum vê-la tachada de “irrelevante”, “ultrapassada” ou “elitista”: as críticas provêm com freqüência da Psiquiatria e da Psicologia dita cognitiva, e se referem à suposta ineficácia do tratamento analítico para aliviar o sofrimento psíquico, se confrontado à terapia com drogas ou a métodos mais diretivos.
Esta afirmação, trombeteada com monótona freqüência, é quase sempre acompanhada por uma outra: “Freud está morto”. Mas por que anunciar isso tantas vezes, e com tamanha veemência? É inevitável a suspeita de que tais declarações sirvam de fachada a algo exatamente oposto – à percepção, vaga e obscura, da Psicanálise como inquietante. E o que haveria de inquietante na Psicanálise? Não pode ser sua suposta ineficácia, seu caráter “pouco científico” ou a “arbitrariedade” do seu método de interpretação: nada disso (que não passa de caricatura) suscitaria medo - quando muito, provocaria desprezo. O que inquieta na disciplina freudiana é sua exigência ética: o sujeito deve responsabilizar-se por sua vida, não no sentido de ser acusado pelos sintomas que apresenta – o extremo deste absurdo é a idéia de que alguém “estressado” pode provocar em si mesmo a eclosão de um câncer – mas no sentido de assumir a parte que lhe cabe nos problemas e fracassos da sua existência, como primeiro passo para os superar - na medida em que isso for possível.


Vivemos numa sociedade em que a autonomia, valor máximo do Iluminismo que plasmou a modernidade, é entendida como liberdade para consumir e para perseguir o prazer a qualquer custo. Pouco importa o sentido das nossas experiências: é a sua intensidade que, nos é dito incessantemente, deveríamos buscar, transformando cada ato e cada instante numa fonte de excitação, fazendo de nossas vidas um constante borbulhar de sensações sem continuidade. Viveríamos, nos dizem, numa cultura pós-moderna, na qual impera a fragmentação e a condição humana se reduziu a migalhas promovidas à categoria de espetáculo; só nos restaria acomodar-nos a isso, e renunciar àquilo que a modernidade promoveu como ideal: a consciência de si e a responsabilidade pelo que somos e fazemos.
A Psicanálise está longe de endeusar a consciência por si: ela nos diz que somos movidos a paixões, que o ego não é senhor em sua própria casa, que muito do que somos nos escapa, talvez o essencial. É por isto que somos levados a atribuir a outrem a culpa por nossas infelicidades – aos pais, ao cônjuge, ao consenso de Washington... A experiência psicanalítica vai por outro caminho, que pode parecer paradoxal: ela convida, por meio do dispositivo mais simples que se possa imaginar – falar sobre si mesmo para outra pessoa – a um mergulho nos desvãos de nossa alma, para tentar conhecer algo daquilo que nos determina à nossa revelia. O extraordinário é que esta experiência pode levar a uma profunda transformação da pessoa, não porque exclui, mas, ao contrário, porque inclui no raio da sua consciência alguns destes fatores. Não é Freud quem “explica”, nem de resto o psicanalista: é o próprio paciente quem se descobre, ouvindo-se falar, deixando-se levar pelo seu discurso, elaborando seus insights e o que o analista pode lhe comunicar por meio das interpretações.
Não é raro, nas entrevistas preliminares, que o candidato a analisando expresse o temor de ficar “dependente” da análise, como se pode ficar dependente do álcool ou da cocaína. Mas na verdade o que assusta é outra coisa: a meu ver, a perspectiva de ter que abandonar os padrões de dependência inculcados na infância, as servidões que resultam do recalque, das defesas mutilantes e do medo de sentir angústia. A liberdade que nasce do autoconhecimento – aparentemente desejada por quem procura uma análise, a crer no que é dito na superfície do discurso – é que ameaça: pois implica em dizer a verdade a si mesmo, em ver dissipadas muitas e queridas ilusões, que levamos tanto tempo construindo, e das quais somos – aí sim, cabe o termo – dependentes.


A viagem psicanalítica ao fundo de si mesmo não é fácil, nem indolor. Ela está na contramão do narcisismo infantil, promovido sem pudor pela sociedade atual como solução para as dificuldades do viver. O espelho que ela estende ao paciente, como o da madrasta de Branca de Neve, lhe dirá que não é “a mais bela”, e esta descoberta provocará desconforto, às vezes terror, certamente angústia. A Psicanálise pode ser tudo, menos complacente com nosso profundo desejo de iludirmos a nós mesmos – e a chamada “resistência” é precisamente a prova de quão arraigada é esta tendência. Ela propõe a conquista da autonomia possível – e nisto é herdeira do Iluminismo; autonomia, contudo, fundada na admissão daquilo para cada qual é mais íntimo e secreto – e nisto é herdeira do Romantismo.
Como nos admirarmos de que tal proposta seja tão pouco compatível com a superficialidade, a pressa e o pouco caso com o sentido que perpassa nossa vida atual? Disso não se conclui que a Psicanálise seja irrelevante; ao contrário, é seu gume crítico (tanto em relação à cultura de massas quanto à “massificação” da experiência de si) que nela perturba. Não queremos ser incomodados, mas o fato é que esta cegueira nos faz sofrer. A Psicanálise apela a uma razão ampliada, que inclua em si o que a sociedade contemporânea mais teme: o conflito, e modos de lidar com ele que não pretendem expulsá-lo dali onde ele se enraíza – em nós mesmos. 


Renato Mezan é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor titular da PUC/SP e autor de vários livros.

sábado, 16 de junho de 2012

A CONSTRUÇÃO DAS RELAÇÕES NO MUNDO CONTEMPORÂNEO!




O mundo não é humano só por ser feito de seres humanos, nem se torna assim somente porque a voz humana nele ressoa, mas apenas quando se transforma em objeto do discurso... 
Nós humanizamos o que se passa no mundo e em nós mesmos apenas falando sobre isso, e no curso desse ato aprendemos a ser humanos.
Esse humanitarismo a que se chega no discurso da amizade era chamado pelos gregos de filantropia, o "amor do homem", já que se manifesta na presteza em compartilhar o mundo com outros homens.
Hannah Arendt



Pensar nos tempos em que vivemos é pensar na contemporaneidade. O termo contemporaneidade refere-se aos tempos recentes, dos últimos vinte ou trinta anos, e, pode-se considerar a marca desta época o fenômeno da globalização. Definida basicamente como estabelecimento de uma rede de informações à distância e de fluxo contínuo, tem como suporte a tecnologia avançada da informação, a informática, que organiza a vida econômica, política e social, segundo uma ordem mundial. As comunicações ultrapassam quaisquer limites ou barreiras, estabelecendo um fluxo rápido e em movimento contínuo de dados – sons, imagens e textos cruzando o planeta, sem controle e sem limites. O implacável avanço dos meios de comunicação estabelece sua presença e ação em todo planeta, resultando em profundas transformações irreversíveis para a condição humana, quanto ao conteúdo, qualidade e quantidade de imagens a que está submetido o homem contemporâneo. E, como consequência, ampliando o imaginário de seres humanos.
A internet assume um poder de ser uma verdadeira extensão do viver cotidiano atual. Por outro lado, possibilita a sedução da liberdade, de um espaço ilimitado de comunicação e de expressão do indivíduo. Com toda essa influência contemporânea, a subjetividade fica, por assim dizer, afetada, gerando novas formas de existência e socializações, com isso, os indivíduos passam a optar pelas redes sociais ou mesmo pelo não vínculo.
Com todo esse movimento contemporâneo, deparamo-nos com novos fenômenos sócio-culturais que afetam, significativamente, a construção subjetiva. Tais fenômenos são:
- Consumismo;
- Modelos tecnológicos;
- Narcisismo moderno.

O CONSUMISMO


Tal fenômeno surge a partir do capitalismo e segue às regras de consumo impostas pela mídia, cada vez mais influente na vida de cada indivíduo. O consumismo passa ser um ritual seguido pelos seus “adeptos” em busca de realização pessoal através do consumo exacerbado de bens, produtos e serviços. Uma tentativa efêmera e frustrante de buscar segurança e conforto e, ao mesmo tempo, tentar lidar com algum conflito interno não resolvido.
O consumismo não propicia a elaboração do simbólico, o sujeito não consegue sanar seus conflitos psíquicos por meio do consumo exacerbado, pois aquilo que se compra ou consome perece, resultando, desta forma, em repetição, um ciclo vicioso ou uma bola de neve.
Segundo Zygmun Bauman em seu livro “Amor líquido”, vivemos numa sociedade objeto, na qual, cada vez mais as pessoas só reconhecem umas as outras socialmente, ou seja, pelos seus bens, por aquilo que elas possuem ou compram. Com isso, as relações ficam igualmente afetadas, seguindo a mesma linha de troca, isto é, quando não se gosta mais ou quando a relação não serve mais, deleta-se, troca-se, joga-se fora…

O MODELO TECNOLÓGICO


          Na atualidade, a maioria das pessoas mantém suas relações tendo como pano de fundo as funções técnicas, desta forma, tudo passa a ser mensurado e com ênfase nos meios de comunicação, cada vez mais fortes. Com isso, as famílias sofrem alterações na sua formação, tornando-se, cada vez mais, focadas na tecnologia. O saber da prática passada de geração para geração e dos vínculos familiares se torna cada vez mais redutível. Com isso, o ritmo que nos encontramos hoje em dia exige que aceleremos cada vez mais para não ser ultrapassado e devorado pela informação.
          O investimento cada vez maior no mundo virtual gera um caráter leviano em que se pode pensar, repensar e até mesmo mudar de postura posteriormente. O relacionar-se pela linha do virtual cria possibilidade de ser criar e “deletar” uma relação muito facilmente. O mundo virtual é uma forma muito nova de se relacionar, facilitando o acesso ao outro que, de uma forma física, não seria possível.
          Nesse mundo virtual, vivemos a sociedade do espetáculo, na qual se ostenta, cada vez mais, por meio das redes sociais, a ideia de felicidades, quanto mais amigos virtuais mais popular, quanto mais postagens de fotos de viagens mais se constrói a ilusão ou o mito da onipotência.

NARCISISMO MODERNO


Na realidade cada vez mais líquida da modernidade, na qual nada se mantém, tudo está muito fluido e sem constância, os indivíduos ficam cada vez mais frágeis em detrimento das consequências que lhes recaem de suas ações na busca pela sobrevivência.
Na tentativa de manter uma indiferença por medo de se apegar e se relacionar, os indivíduos produzem um mal estar cultural, expondo a fragilidade em cada indivíduo, que não encontra segurança nas relações.
Desta forma, o indivíduo cada vez mais aberto e cambiante tem a necessidade de fazer investidas narcísicas, a fim de dar conta dessas constantes mudanças do mundo, que perdeu o poder organizador que o coletivo tinha sobre o social, vivenciando, assim, sua existência de maneira mais solitária e fria.


Assim, podemos refletir sobre nosso líquido mundo moderno e perguntar-nos: será que não estamos preocupados com uma coisa e falando de outra? Será que nosso desejo, paixão, objetivo ou sonho é de “relacionar-se”, mas na verdade não estão preocupados em evitar que nossas relações acabem congeladas e coaguladas? Estamos mesmo procurando relacionamentos duradouros ou nosso maior desejo é que eles sejam leves e frouxos, de tal modo que possam ser postos de lado a qualquer momento? Afinal, que tipo de conselho queremos de verdade: como estabelecer um relacionamento ou como rompê-lo sem dor e com a consciência limpa? (Bauman, 2004).
Será que vamos conseguir, um dia, voltar a olhar o outro nas suas qualidades e diferenças, indo além das nossas projeções e expectativas?
Precisas ter! Precisas comprar! Precisas experimentar! Precisas possuir! Precisas de tudo a qualquer custo, de qualquer modo! Ora, promessas vãs, momentâneas alegrias, sentidos descartáveis; é o reino das aparências, o primado da reclusão em uma insaciável procura por uma resposta que está além do consumismo tresloucado. Doce mel, terrível veneno... (Cortella, 2009, p. 109).




Referêcias

 

CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos! Provocações filosóficas. Petrópolis: Vozes, 2009.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: JZE, 2004.



Texto: Renne S. Nunes 
(Psicólogo - Mestrando em Psicologia Clínica pela USP)

Fonte das imagens: GOOGLE

domingo, 8 de abril de 2012

NOJINHO DE MIM



Procurado pela Revista TPM, o psicanalista Christian Dunker resolveu mergulhar no nojo feminino para entender de onde vem esse  mal contemporâneo

A mulher perfeita não tem cheiro, nem pelos, hálito, chulé ou gosto. Nojo delas mesmas?



Por Christian Ingo Lenz Dunker

Imagem:  Revista TPM
  
Muito genericamente, o corpo nos diz quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Ele se torna tão importante porque é também algo que imaginamos controlar, moldar e produzir como imagem de nós mesmos, como queremos nos apresentar para o outro. E o cheiro é um traço essencial de que há algo que não controlamos em nosso próprio corpo. Podemos usar xampus, pós, cremes e perfumes, mas essas táticas se degradam no tempo, são corrompidas por nosso suor, pelos odores do ambientes, pela presença do cheiro do outro. O que varremos para baixo do tapete permanece lá, escondido, invisível, mas aquilo que cheira mal, nos diz que mesmo estando escondido se revela na forma de uma sensação genérica e mal definida. Nosso cheiro diz, por isso mesmo, quem somos, para além do que queremos parecer. Isso não quer dizer que temos uma essência odorífica, mas que justamente por escapar, por ser mal definível, por ser um estranho dentro de nós mesmos, atribuímos ao cheiro esse lugar fascinante e perigoso. É por isso que o filme O Cheiro do Ralo (Heitor Dhalia, 2006) nos parece tão obsceno quanto atual.
Se na nossa cultura há uma promessa de que, controlando nossas imagens, controlamos como o outro nos percebe, aquilo que denuncia que as imagens enganam, ou seja, o cheiro, torna-se um problema crucial. “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.
A ideia do sabonete íntimo é equivalente à tentativa de disciplinar as “partes pudentas” da mulher, de forma que elas não se mostrem indóceis, incontroláveis ou denunciantes. É interessante ver como, em geral, o sabonete íntimo cruza duas ideias ligadas ao poder moral do cheiro.


Primeiro temos a ideia de que as partes íntimas devem ser higienizadas, limpas. Esta é a ideia mais antiga, que representa a sexualidade em analogia com o sujo, o impuro e o doentio. A figura típica aqui é a da dona de casa, frustrada sexualmente, que consagra sua existência à mania de limpeza, ordem e higienização. Como as mãos de Lady MacBeth, que jamais são limpas do sangue do assassinato cometido, a sexualidade expulsa pela porta da frente, retorna pela porta de trás, como um cheiro, uma mancha, uma coisa mal definida. Hitchcock conseguiu por em imagens esta força sem forma, excessiva e invasiva representada pelo cheiro em seu filme Os Pássaros (1963).
Mas a nova retórica dos sabonetes íntimos recobre esta primeira figura com uma segunda ideia. Usar o sabonete íntimo não é só uma maneira de controlar o cheiro aversivo, mas uma forma de lembrarmo-nos que temos uma ... E que ela merece atenção, cuidado e observação. Menos que uma vagina inodora, queremos aqui um cheiro específico, que podemos escolher, controlar, variar. A imagem trazida aqui é a da mulher que, mesmo menstruada, veste calça branca, faz ginástica e está disposta a qualquer coisa.

CHEIRO SECRETO


O nojo é um dos chamados sentimentos sociais, ou seja, depende da forma como aprendemos a dissociar em nosso corpo o que é permitido do que é proibido, o prazer desejável do prazer interditado. Freud dedicava grande importância ao nojo como afeto social muito primitivo, tanto na história da criança, quanto na história de nossa cultura.
De fato relação com secreções e excreções são as experiências originárias do nojo, e apontam para o que deve ser excluído e escondido em nossa cultura e em nós mesmos. Por exemplo, os alemães, povo tido como meticuloso e metódico, utilizam privadas sanitárias nas quais os dejetos podem cair (em um recuo específico de porcelana), aí serem inspecionados e, em seguida, levados pela água, segundo a precisa deliberação do usuário. Já os franceses, povo mais político e dado à controvérsia, dispensam este lugar reservado para coletar os dejetos, mas permitem que a coisa flutue antes de ser abruptamente subtraída. Os japoneses, culturalmente associados com a tecnologia, inventaram as privadas com duchas automáticas, de tal forma que não é necessário ver e o mínimo de odor é experimentado. Nós brasileiros, adoramos a turbulência excessiva e os rodamoinhos pelo qual muita água deve ser escoada para limpar bem nossos rastros.
Portanto, o nojo é sempre primariamente de si, depois ele é depositado no outro. Freud fez uma afirmação clínica muito forte sobre o nojo: “Toda vez que, diante de uma experiência potencialmente sexual, encontramos no paciente o sentimento de nojo, não hesitamos em diagnosticar a histeria”. Ou seja, o nojo como afeto deslocado, o nojo excessivo, o nojo fora de lugar, aponta para um aspecto da sexualidade do qual não queremos saber em nós mesmos.
Uma mulher percebida como suja ou insuficientemente limpa é associada com alguém que coloca seu desejo ativamente, que tem vontade de se sexualizar ou, inversamente, alguém que não se importa com a opinião (e logo com o desejo) dos outros. Portanto, a higienização feminina liga-se tanto ao processo de cuidar, de observar e de tratar do próprio corpo (como satisfação intrínseca) quanto ao processo pelo qual a mulher se apresenta como capaz de controlar seu corpo (logo sua sexualidade), como um corpo que não foi tocado por outro (para a fantasia masculina seria um corpo sem rastros) e como moralmente desejável.
Mas vale lembrar que um ser humano essencialmente cheira. O cheiro é o rastro de suas experiências com os outros e consigo mesmo. A obsessão de não ter cheiro é a expressão da negação de nossa humanidade. É isso que nossa época parece pedir: “Seja intenso, viva a vida e aproveite, mas ao mesmo tempo negue a sua própria humanidade e leve uma vida líqüida: insípida, incolor e inodora.” Tome café, mas sem cafeína, coma chocolate, mas sem açúcar, viva paixões, mas sem se perder, ou seja, viva a vida, mas não seja humano.

Texto: Christian Dunker
Revista TPM


domingo, 18 de março de 2012

A PSICANÁLISE SEGUNDO D. W. WINNICOTT




Donald Woods Winnicott foi um pediatra inglês que se tornou psicanalista após cumprir uma formação na Sociedade Britânica de Psicanálise, especializando-se no atendimento de crianças e adolescentes. Assim, a origem da sua orientação teórico-clínica, que influenciou muito a técnica psicanalítica desde então, sobretudo a chamada escola das relações objetais, tem alguns marcos importantes: a sua experiência como pediatra, que possibilitou uma compreensão muito acurada do processo de constituição da subjetividade através da observação de crianças e de bebês com ou sem distúrbios psíquicos; sua leitura da obra de Freud e de Melanie Klein, pioneira no atendimento psicanalítico de crianças e teórica muito influente; o acesso indireto e muitas vezes inexplicável às idéias de Sándor Ferenczi – talvez através de Melanie Klein e Michael Balint, também húngaros –, o primeiro psicanalista a privilegiar o papel do ambiente na constituição da subjetividade e a destacar as figuras do trauma, da regressão à dependência e do jogo no manejo clínico; o fato de ele tratar, em meados do século, pacientes cuja configuração subjetiva se afastava das neuroses clássicas; por último mas não menos importante, o impacto incomensurável da sua experiência de análise pessoal.
Os princípios de qualquer tratamento psicanalítico, desde Freud, são o manejo da transferência, modus operandi da psicanálise, o respeito pela resistência – positivada – do paciente e o emprego da interpretação do recalcado como instrumento para a elaboração dos conflitos afetivos. A diferença impressa por Winnicott no campo psicanalítico foi o entendimento de que o método clássico era adequado às configurações neuróticas, mas não para os pacientes mais regredidos que se aventurava a atender. Assim, a partir dessa experiência, Winnicott percebeu que a situação clínica se configurava como uma situação altamente especializada do plano de cuidados, onde o manejo do setting e a oferta de suporte (holding) para as experiências arcaicas de contato com alteridade por parte do analisando pudessem acontecer satisfatoriamente. Com isso, pôde se desenvolver um estilo clínico no qual o psicanalista se disponibiliza para ser “usado” pelo analisando, não no sentido de um feixe de projeções de fantasmas pré-existentes a serem interpretados, mas no sentido de poder ser reconhecido como uma substância diferente-de-si. Nesse estilo clínico, o espaço terapêutico pode ser definido como uma área de experimentação nomeada de brincar compartilhado e o psicanalista não pretende se destacar das possibilidades criativas inauguradas pela constituição de tal espaço.
Na psicanálise, o diagnóstico se impõe apenas na medida de uma hipótese de trabalho. Um diagnóstico consistente só se poderia realizar ao fim do tratamento, como dizia Freud, quando o sofrimento do paciente adquire um sentido singular. E aí, já não tem mais muita serventia. Portanto, acompanhando Freud, na concepção winnicottiana a primeira e principal função do diagnóstico é avaliar se o tratamento deve ser iniciado, ou se é melhor deixar as coisas como estão (ele sabia bem o quanto uma psicanálise mal conduzida pode ser iatrogênica). Além disso, impõe-se também a questão acerca da disponibilidade do analista em tratar aquela pessoa. Finalmente, como a leitura diagnóstica não é baseada na concepção de estruturas clínicas, muitas vezes é preciso conhecer o grau de regressão do paciente para avaliar, segundo a forma pela qual a transferência se manifesta, a aplicabilidade da técnica psicanalítica clássica ou a necessidade de um manejo diferenciado.
O que se espera do tratamento é que o analisando possa, gradualmente, se despojar das posições reativas rumo ao gesto espontâneo e ao viver criativo. Em última instância, que o paciente que não sabe brincar possa aprender a brincar com o psicanalista (este, claro, deve saber brincar, o que muitos preferem esquecer).
 Na psicanálise com orientação winnicottiana o psicanalista se direciona pelo que podemos chamar de uma ética do cuidado. Seu compromisso maior é com a pessoa que padece, e da qual se dispõe a tratar, buscando transformar o sofrimento restritivo e facilitar a emergência de processos criativos. Nesse sentido, se afasta tanto dos métodos mais diretivos que estabelecem uma finalidade a priori a ser atingida, quanto das orientações psicanalíticas que, em nome da superação de uma suposta “covardia moral”, apostam em uma técnica excessivamente distanciada buscando, assim, promover a responsabilização do analisando pelos seus atos. Desse modo a clínica assume, de forma plena, os dois sentidos que se pode encontrar na sua origem etimológica: klinikos, o debruçar-se sobre o leito do paciente, acolhendo a sua dor, e o clinamen, o desvio transformador e criativo.
A possibilidade de resgate do que Winnicott chamou, na sua precisa simplicidade, de viver criativo. Para Winnicott, são três os objetivos do tratamento psicanalítico: conservar vivo, bem e desperto, seja o analisando, seja o analista, bem como todos aqueles que entram em contato com a psicanálise. A grande contribuição de Winnicott para o campo psicanalítico foi lembrar que o viver é mais importante que a própria psicanálise, mais belo e mais trágico que as teorias supostamente bem acabadas e suas verdades inquestionáveis.



Com base na entrevista de Daniel Kupermann concedida ao jornal do CRP-RJ em dezembro de 2006.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O QUE FREUD EXPLICA NOS DIAS DE HOJE?




“Compreender é uma maneira de se reconciliar com o tempo
– não de se resignar ao que é, mas de tornar-se capaz de
acolher o que advém.”

Hannah Arendt



Sigmund Freud viveu numa sociedade que exercia forte controle sobre o comportamento sexual dos indivíduos, em especial das mulheres, que se sentiam culpadas, pecaminosas e sujas ao verem brotar os desejos dentro de si. A repressão sexual era a base para a neurose do tipo histeria que, particularmente na Europa ocidental, tornou-se quase epidemia em todas as classes sociais: jovens mulheres apresentavam quadros graves com desmaios, alterações de dupla personalidade, paralisias, convulsões. Na sociedade de hoje, sexualmente liberalizada, aquelas neuroses clássicas dificilmente são encontradas – por vezes em subgrupos específicos, como de religiosos onde o controle da libido permanece intenso. “Mas vale acrescentar que Freud, sua teoria e a psicanálise contribuíram muito para aumentar a tolerância e permitir as realizações sexuais. É uma prova de que Freud está presente em nosso tempo”, observa o psiquiatra e psicanalista Mário Eduardo Costa Pereira, professor da Faculdade de Ciências Médicas.
Se as histerias dos tempos de Freud já não estão tão presentes, vale ressaltar que as estatísticas no campo da psiquiatria mostram que as taxas de depressão crescem sem parar. É evidente que o pensamento freudiano encontra desafios com as marcas dos nossos tempos, como o debate com as neurociências, com o atual sistema econômico neoliberal e a construção de subjetividades numa sociedade globalizada. Nesse sentido, é importante considerar que a teoria e a metodologia de Freud talvez sejam as únicas que se propõem a estudar a subjetividade, tomando cada ser humano como singular, mesmo pertencendo ao grupo genérico dos humanos.
Entre os parâmetros ideais de hoje para que o indivíduo avalie sua vida estão o trabalho, o dinheiro, a beleza, os bens de consumo, o sucesso. No entanto, pouquíssimas pessoas alcançam estas metas, sendo que muitas já são antecipadamente excluídas da corrida, impedidas sequer de sonhar com esses ideais por causa das condições socioeconômicas. O preço para se atingir as promessas de felicidade capitalista é a frustração, a angústia, o estresse, a hipertensão, a crise de pânico. Há quem atinja e se dá conta de que não chegou ao paraíso. Quem se vê excluído do processo, acha-se um ser humano de segunda categoria e fica igualmente a um passo da depressão.  

Do divã à pílula


Em outra referência aos recursos modernos – quando Freud recorria às confidências do divã, através do método da associação livre, o professor de Unicamp faz ressalvas quanto ao uso, sobretudo ideológico, dos medicamentos disponíveis para aliviar sintomas como mal-estar, depressão, ansiedade, insônia, impotência e para o controle de sintomas psicóticos:

“As drogas são úteis do ponto de vista clínico, mas as grandes questões humanas não se resumem à falta de Prozac. Uma boa pílula não ataca os problemas concretos em nível existencial. Também é verdade que, tecnicamente, estamos cada vez mais próximos da ‘pílula da felicidade’, o que vai exigir uma avaliação dos aspectos éticos na introdução desse tipo de droga, pois os conflitos e desejos humanos, enquanto ais, estão fora do âmbito da farmacologia”. A propósito, Costa Pereira acrescenta que nunca houve uma medicina tão baseada na ciência e tecnologia, cuja eficácia está comprovada, mas que provoca sérios reflexos na clínica médica. “Temos cada vez mais médicos especialistas, com conhecimentos que brotam das ciências naturais, e menos a figura do médico que se preocupe com a dimensão humana da doença e o sofrimento do paciente. Não é casual, portanto, o número sem precedentes de pessoas de todas as classes sociais que estão recorrendo a curas alternativas e espirituais – cristais, duendes, bruxarias. Novamente, vemos um sinal de que a tecnologia dá resposta a problemas pontuais, mas deixa completamente intocadas as grandes questões humanas, as quais emergem com toda sua intensidade justamente no âmbito da prática médica”.

No nosso sistema tempo é dinheiro, sendo que o serviço público ainda precisa dar conta da grande demanda. Por outro lado, para a população, a figura do profissional altamente especializado que recomenda exames sofisticados virou um fetiche, quando a maior parte dos casos poderia ser resolvida no nível da clínica geral. Introduzir no sistema o médico de família, que olhe o paciente como um humano doente e não como um corpo biológico doente, é mais um desafio para a política de saúde.
Mesmo com todos os avanços da medicina e da farmacologia, a Psicanálise se mostra como uma das formas mais eficazes em busca do subjetivo. A análise deve ser sentida como um espaço transicional, acolhedor, permitindo a cada paciente criar e restaurar novos aspectos e nova linguagem para a sua história. Assim, a análise possibilitará ao sujeito romper com as suas fixações, superando os recalques, o que lhe permitirá a reconstrução de uma nova história, recolocando o paciente diante da possibilidade de desejar de forma diferente e criativa. Desconstruindo, o sujeito poderá vir a construir. Nas palavras da poetisa Cecília Meireles fica uma reflexão para nosso mundo moderno: “A vida só é possível reinventada”.

Texto adaptado de:  Jornal da UNICAMP – Agosto / 2006




 ————  Ψ  ————


                                                                                             Renne dos Santos Nunes
                                                                                              Psicólogo

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

BAIXA FIDELIDADE


Históricos da web, torpedos mal apagados e e-mails equivocados são fontes permanentes de devastação amorosa; a vida digital tornou o conceito de traição imensamente mais elástico


por Christian Ingo Lenz Dunker


Imagem: Gonçalo Viana

Escrevi os originais de meu mestrado em uma máquina de escrever. Tive um fax modem e joguei Donkey Kong. Juro que já existiram pessoas pagando fortunas por um celular tipo tijolo depois de esperar a vida toda por um telefone fixo. Sei o que é a internet antes da banda larga. Vi, com estes olhos que a terra há de comer, o primeiro video--clipe, se é que você pode imaginar um tempo no qual não existia a MTV. Assisti à morte do vinil, da indústria fotográfica e fonográfica. Cala fundo em mim a lenta agonia do CD. Sou da época em que computadores tinham sólida e insuperável identidade: 286, 386, 486. Deveria haver algum privilégio em ser da primeira geração, ou pelo menos algum orgulho de ter vivido alguma coisa pela primeira vez.
O filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen (2011), explora justamente esse fascínio retrospectivo causado pelas gerações que inventaram coisas que pareciam fazer a vida valer a pena: a era áurea do jazz e do surrealismo nos anos 20, o filme noir e suas divas dos 40, o existencialismo sartriano do pós-guerra, a turma beatnik da contracultura. Eu me contentaria em ter assistido ao Dark side of the moon ou visto os Beatles. Serve The Who ou Stones. Estaria satisfeito até mesmo com bossa-nova, jovem guarda e tropicália. Se não for possível troco tudo por alguns seminários de Lacan ou Foucault. 
Pressinto que as gerações vindouras olharão para trás a nos respeitar como aquela turma dos antológicos e inesquecíveis Google, Facebook e Wikipedia. Somos os primeiros a viver esta vida digital e os últimos a lembrar como éramos antes disso. Mas será que alguém realmente vai cobiçar a experiência inédita de ver aparecer na sua frente, magicamente, um e-mail? Antigamente havia uma propaganda que dizia: o primeiro sutiã a gente nunca esquece. Se não me engano foi vencedora do Leão de Ouro do festival de Cannes nos anos 80. A fórmula funciona, mas não é por causa do sutiã, é por recuperar a força insondável, que habita cada um de nós, em torno da primeira vez. 
Somos absolutamente fiéis à primeira vez, para o bem e para o mal. Acho que não foi por outro motivo que Freud estabeleceu esta regra de ouro clínica de que é preciso prestar muita atenção às comunicações iniciais do paciente. Fixar bem as primeiras sessões. Reter a forma precisa na qual algo é dito pela primeira vez. Perto da primeira vez, as outras são apenas cópias impuras e mal-acabadas. É por isso que o passado se torna nosso baú fetichista. Nele podemos imaginar a primeira vez que presidiu a constelação de desejos que nos concebeu. A forma mais pura e intangível da primeira vez, antes mesmo que ela tenha existido para nós, a arquiprimeira vez, a mãe de todas as primeiras vezes.
Acontece que é difícil permanecer fiel a uma experiência cuja verdade nos é desconhecida e, principalmente, uma coisa que parece feita para destruir todas as fidelidades constituídas. No fundo, a maior parte desta novidade que é a vida digital segue a máxima mais do mesmo: trabalhar mais, mais rápido, mais interligado, mais fácil, mais solitariamente – mesmo acompanhado. Mas há uma coisa na qual ela realmente inovou: no modo de destruir fidelidades. Históricos da web, torpedos mal apagados, e-mails equivocados são fontes permanentes de devastação amorosa. A vida digital tornou o conceito de traição imensamente mais elástico, flexível e discutível, disponibilizando o resgate nunca antes possível de figuras de nosso histórico desejante mais longínquo. Ou seja, uma enxurrada de primeiras vezes, para todos os gostos e sabores, do pré-primário ao colegial (leia-se ensino médio). Espero que não, mas acho que seremos lembrados como a geração que inventou a baixa fidelidade generalizada. 




Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).






 
————  Ψ  ————

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O TRIUNFO DA MORBIDEZ?




Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
– Clarice Lispector


O pensador francês Blaise Pascal, um dos mais influentes filósofos e cientistas da nossa cultura desde o século 17, dedicou boa parte de seu trabalho reflexivo aos temas que, dizia, vão além da capacidade humana de entendimento, repousando a inserção deles exclusivamente no terreno do místico e do insondável. Pascal exercitava o que chamamos (às vezes cinicamente) de “perscrutar a alma humana”, em busca de explicações sobre nós e o sentido daquilo que fazemos e, apreciador de aparentes paradoxos, dizia que “quando estamos de boa saúde, admiramo-nos de como seria possível estar doentes; quando isso acontece, medicamo-nos alegremente.”


Há uma extrema contemporaneidade nessa perspectiva pascaliana, principalmente agora, quando tratar de doença, em vez de consolidar a saúde, tornou-se uma rotina reconfortante. Aceita-se com tranquilidade, por exemplo, a ideia de que o stress agudo e suas outras decorrências faz parte da vida cotidiana e, dessa forma, sendo uma consequência da “normalidade” de nossa existência, é necessário absorver maneiras de coabitação com ele; tomar medicamentos (e trocar receitas e referências médicas) tornou-se uma obsessão e uma temática recorrente nas inúmeras situações de convívio que a vida extensamente urbana impõe.


Qualquer ocasião de encontro entre pessoas, fortuito ou intencional (no trabalho, nas festas, nos deslocamentos, nas filas, etc.), é suficiente para, com rapidez, ensejar um frenético escambo de posturas religiosas curativas, sugestões farmacológicas ou dietéticas, indicações profissionais especializadas e, claro, medidas eficazes de profilaxia laboral e espiritual, culminando com algumas hipócritas e falsas versões holísticas que prescrevem ervas cultivadas na terra (envenenada) como se fossem espécies de rosas de Hiroshima.
Assim, ocupamos uma boa parte do nosso tempo fora do mundo do trabalho – incessante e extenuante – cuidando das nossas doenças, só para podermos ficar momentaneamente aptos para continuar agindo do mesmo jeito que agíamos, e, portanto, conseguirmos melhores condições para fortalecer ainda mais as circunstâncias que nos deixam doentes...


Sigmund Freud, na segunda década do século 20, deixou de dar atenção estrita aos mecanismos de funcionamento do psiquismo individual e passou a dirigir o olhar psicanalítico (por ele fundado) também para os obstáculos da convivência humana em sociedades complexas; esse inédito esforço resultou, em 1930, na publicação da obra O mal-estar na civilização, na qual ele examina as razões pelas quais cada um de nós aceita reprimir as próprias bases constitutivas originais para sentir-se minimamente seguro em meio aos outros. Ou, como hoje diríamos, para ser socialmente aceito e coletivamente assimilado, vale até mesmo arcar com a custosa perda da autenticidade, da individualidade e da salubridade.


Vivemos agora a civilização do mal-estar? É provável; não estamos nos viciando em remédios, mas isso sim, em doenças que entendemos como normais, gerando uma passividade brutal, intensamente vivida em torno do patológico e da submissão ao poder sedutor do mórbido. Por isso, o arguto escritor irlandês Bernard Shaw (Nobel de Literatura em 1925) nos avisou: “Mens sana in corpore sano é uma máxima absurda. O corpo são é o produto do espírito são”.
A vida é curta para cuidar de tudo isso? Então, retomemos um contemporâneo e conterrâneo de Pascal, o ensaísta Jean de la Bruyère: “Aqueles que gastam mal o seu tempo são os primeiros a queixar-se de sua brevidade”.




Texto extraído do livro:
CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos! : Provocações filosóficas. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2009.


 ———— Ψ ————