domingo, 11 de setembro de 2011

Afinal, o que é psicanálise?

  
Flávia Albuquerque

Muitas pessoas questionam o que seria uma psicanálise. Achei importante elaborar uma tentativa de esclarecimento.
Psicanálise é um tratamento desenvolvido por Freud a partir da sua descoberta do inconsciente. Consiste em uma escuta investigativa do sujeito no seu sofrimento. É importante sublinhar que simplesmente querer abolir este sofrimento ou mesmo conseguir arranjar uma forma de exterminá-lo não basta para por fim à questão. O melhor caminho é elaborar um saber a respeito de como aquele sujeito se constituiu. Ou, no caso de psicanálise com crianças e adolescente, em como essa constituição está se dando.
Uma pessoa nasce inserida em um contexto familiar com suas particularidades. Nenhuma pessoa é igual a outra. A escuta analítica se dá no caso a caso.
O lugar do sujeito no desejo dos pais, o nome recebido, a dinâmica dessa família, a idade que o sujeito tinha quando certos eventos ocorreram, a relação parental, – entre outros detalhes – são reveladores para tomar conhecimento de que posição o sujeito se coloca frente ao outro e aos acontecimentos da vida. A partir destes detalhes, o sujeito constrói um certo ‘discurso inconsciente’. Discurso este que o analista está apto a escutar e devolver, em forma de intervenções, ao sujeito que o busca.
A escolha da profissão, dos parceiros amorosos e decisões tomadas estão intimamente ligadas a todo este contexto.
Psicanálise é longa? Sim. Uma análise levada a sério é longa, o que não quer dizer que os efeitos sejam demorados. É preciso levar em conta que o sujeito continua vivendo e encarando assim tantos outros eventos que são importantes serem trabalhados.
Psicanálise é cara? Sim. Mas não quer dizer que o menos favorecido não possa se submeter a uma análise. É cara para cada um a sua maneira.
Psicanálise é dolorida? Também. Afinal, se dar o trabalho de se questionar não é nada fácil. Vale lembrar que um sujeito sem sofrimento não existe. É mito. Convivemos diariamente com o que chamamos de “dor de existir”. O fundamental é que um sujeito que frequente ou já tenha frequentado um psicanalista e tenha minimamente sido avisado da existência e do funcionamento do inconsciente passa a ter uma atitude transformadora perante a vida.
No senso comum o termo psicanálise é muitas vezes confundido com psicologia (psicoterapia) e psiquiatria. E a verdade é que são 3 atuações radicalmente diferentes. O que expliquei acima se trata de psicanálise. Quanto às outras atuações um psicólogo (psicoterapeuta) e um psiquiatra podem ser buscados para esclarecê-las.


Texto de Flávia Albuquerque - Psicanalista / RJ

terça-feira, 2 de agosto de 2011

POR QUE É TÃO DIFÍCIL LIDAR COM A ANSIEDADE



“O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam.”
– Guimarães Rosa



 Sentir nervosismo, ansiedade, medo, pânico, fobias… Essas são, de fato, emoções perturbadoras. Todos nós, em algum momento, sentimos nervosismo, medo ou preocupação, o que é algo normal, principalmente quando se refere a uma apresentação em público, passível de erros. Todavia, se tais emoções se tornam muito freqüentes, a ponto de atrapalhar nosso desempenho nas atividades, algo errado está acontecendo.
Em um conceito generalizado, definimos nervosismo como ansiedade. E, afinal, o que é ansiedade? A ansiedade faz parte de nós e age em serviço do nosso mecanismo de proteção. Sua tarefa é sinalizar que algum perigo está em iminência. Esse perigo pode ser externo ou interno. O perigo interno é muito mais difícil de ser detectado por referir-se ao mundo inconsciente, área de atuação da Psicanálise. Situações novas ou inesperadas acionam o medo. Fisicamente, a ansiedade e o medo se manifestam em forma de sudorese, taquicardia, respiração acelerada, dores pelo corpo, etc.
Nós, humanos, temos algumas necessidades básicas para um bom desenvolvimento, dentre elas, a necessidade de sermos reconhecidos em nossas habilidades e a necessidade de aprovação. Expor-se em público traz a tona essas necessidades, no entanto, existe o risco de não ser aceito ou não ser aprovado. Este último representa um grande perigo, o da rejeição, resultando em muita ansiedade e muito medo. Vale destacar que esse processo ocorre de forma inconsciente, ou seja, as pessoas não têm conhecimento destes mecanismos.


Aprofundando um pouco mais no conceito de ansiedade, para a Psicanálise, a ansiedade representa um sinal da presença de perigo no inconsciente. É percebida como resultado do conflito psíquico entre desejos inconscientes sexuais ou agressivos com as ameaças advindas do superego (censura, moral...) e da realidade externa. Em resposta a este sinal, o ego (o “eu” organizador em contato com a realidade externa) movimenta mecanismos de defesa para evitar que pensamentos e sentimentos inconscientes inaceitáveis emirjam para a percepção consciente.
Entretanto, além das questões envolvidas com os conflitos inconscientes de ordem sexual, há fatores estressores que podem desencadear uma série de emoções geradoras de ansiedade, como no caso da morte de um dos pais e/ou de pessoas muito próximas, a separação, a crítica e a humilhação, a violência, etc.
A bem da verdade, falar de ansiedade também é falar de algo que vai além do real: é falar de algo que tramita o campo da fantasia. Temos fantasias porque temos desejos que nos agitam no mais profundo de nós mesmos e queremos que tais desejos se satisfaçam imediatamente, sem levar em consideração a realidade. A fantasia é a forma que usamos para satisfazer inconscientemente o desejo (sexual ou agressivo). É uma curta cena dramática e muito rápida que se repete sem nunca ser nitidamente notada pela consciência. É, portanto, uma cena que não vemos mentalmente, cujos efeitos sentimos emocionalmente, sem saber que é a causa de nossas emoções.
Lidar com a ansiedade é algo particular de cada indivíduo: alguns se saem bem, outros não. Esses podem desenvolver até mesmo uma fobia social, o medo de eventos sociais como festas, encontros ou apresentações. Em uma dimensão mais crônica, podem até mesmo serem vítimas da síndrome do pânico.

 É importante que se procure ajuda profissional assim que surgirem, de forma insistente, os sintomas da ansiedade. Com o tratamento adequado, as pessoas poderão resgatar o controle de suas vidas, agregar qualidade a ela, elevar a autoestima, sem medo de errar e, se errar, compreender que não há problema nisso pois faz parte do universo humano. Além disso, por meio de um processo de psicoterapia psicanalítica, as pessoas poderão entrar em contato com algumas de suas fantasias a fim de lidar com suas emoções e, desta forma, encontrar a liberdade de pensamento.


Texto:
Renne dos Santos Nunes
Psicólogo


Fonte das imagens: GOOGLE


quinta-feira, 14 de julho de 2011

A DOR PSÍQUICA DE AMAR...


“A dor é um afeto que reflete na consciência as variações extremas da tensão inconsciente, variações que escapam ao princípio de prazer.”
– Nasio



Dor desmedida. Dor do nada, sem causa aparente. Dor de existir, que se reproduz de um vazio que clama em vão por uma palavra que possa simbolizá-la ou significá-la. Dor obscura, sem limites, cujo sentido está velado para aquele que a sente. Enquanto que para alguns é possível fazer um trabalho de luto, reconhecendo seu objeto de perda, trabalhando ou amenizando sua dor, para outros parece que isso é impraticável. Por não saberem exatamente o que perderam, entram no mundo obscuro e enigmático da melancolia.
Diferentemente da dor corporal em consequência de um ferimento, a dor psíquica acontece sem agressão aos tecidos, isto é, sua causa não se encontra na carne, mas na relação, no laço que há entre quem ama e seu objeto amado. Desta forma, define-se como dor psíquica, ou dor de amar, o afeto resultante da ruptura brutal do laço que nos liga ao ser ou à coisa amada. Tal separação brusca gera dor pela perda do objeto que é, neste momento, igualmente amado, odiado e angustiante.

Quanto mais se ama, mais se sofre. Perder o ser amado ou o seu amor dói tanto que leva a pessoa a mergulhar-se em seu desespero. A maior ameaça ao nosso sofrimento provém das nossas relações com os seres humanos. Atualmente, cada vez mais as pessoas se envolvem em relações vazias, quando não, muito intensas e efêmeras. A globalização está provocando uma transformação nas convivências, dissipando o aprofundamento das relações e gerando o isolamento das massas.
Com tanta instabilidade nas relações e com tantas relações frustradas, a dor psíquica se mantém em um movimento contínuo que leva a pessoa a seu esgotamento por se manter ocupada em amar desesperadamente a imagem do amado perdido. O sofrimento, na verdade, ocorre por se romper com a energia investida no objeto amado como sua fonte de satisfação, pois é no outro que depositamos nossas expectativas de felicidade. Entretanto, o conjunto de sentimentos que experimentamos pelo objeto ou pessoa amados são, decisivamente, determinados pela fantasia. Só captamos a realidade através da lente deformante da fantasia. Só a olhamos, escutamos, sentimos ou tocamos envolvidos no véu tecido pelas imagens nascidas da fusão complexa entre a imagem do outro e a imagem de nós mesmos.
A dor é uma experiência de solidão, mas é igualmente um apelo ao outro. Quando esse outro intervém, há um alívio na dor; ela se transforma em sofrimento. Ou seja, no sofrimento há a mediação do outro que alivia a dor. E o outro se faz presente pelo seu olhar que deseja, reconhece e ama. Penso que este é o meio mais humano de que dispomos para aprender a conviver com a dor, para além dos meios que a medicina moderna felizmente nos oferece. Quando se aprende a conviver com a dor, é a sua transformação em sofrimento que ajuda a consolar.
A dor e o sofrimento fazem parte de todos os seres humanos. Buscar alternativas de vida mais felizes, nem que seja na Lua, é o que torna a vida com sentido e o que nos leva a realizar os nossos sonhos. Os grandes feitos da humanidade e de cada indivíduo concretizam-se a partir da capacidade que se tem de sonhá-los e, consequentemente, realizá-los diante das condições da realidade, mesmo que isso nos provoque dor e sofrimento. A verdade é que viver intensamente é experimentar a alegria e a dor. A dor é a prova que nosso corpo é psíquico!


Texto:
Renne dos Santos Nunes
Psicólogo


Fonte das imagens: GOOGLE



quarta-feira, 8 de junho de 2011

MUNDO DA GLOBALIZAÇÃO OU DA SOLIDÃO?


A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo.
– Soseki Natsume


A palavra solidão nos remete à ideia de um sentimento no qual uma pessoa sente profunda sensação de vazio e isolamento. Esse sentimento é tomado não só pelo desejo de querer uma companhia ou querer realizar alguma atividade com outra pessoa, mas também, pelo desejo de que os seus sentimentos precisam de algo novo, possibilitando uma transformação em si mesmo.
Durante nosso crescimento como seres humanos e como indivíduos, passamos por um processo de separação ainda no nascimento. A partir de então, continuamos a sofrer diversas formas de separação, perdas e lutos que nos possibilitam ter uma independência crescente até a idade adulta e posteriormente.
Sentir-se sozinho pode ser uma emoção saudável e escolher de ficar sozinho por um período pode ser uma experiência enriquecedora. No entanto, a solidão pode gerar um estado de profunda separação, causando sentimentos de abandono, rejeição,  insegurança, ansiedade, falta de esperança, inutilidade, insignificância e ressentimento. Quanto maior o período de tais sentimentos, mais debilitada e travada a pessoa será na capacidade de ter um estilo de vida e relacionamentos saudáveis. Assim, a partir do momento em que alguém se convence de que não pode ser amado, a experiência de sofrimento e o distanciamento do contato social só tendem a aumentar, recorrendo-se muitas vezes ao mundo virtual.

Com a chegada da globalização, com a explosão de informações percorrendo o mundo a cada segundo, com a crescente busca pelos sites de relacionamento social e com tantas outras coisas acontecendo ao mesmo tempo, o ser humano não dá conta de absorver tanta tecnologia e informação, vivendo superficialmente cada coisa. Em outras palavras, há uma diminuição significativa de um elemento essencial à constituição humana: o símbolo. Essa disfunção da função simbólica produz uma anemia psíquica que tem como consequência um estado de vazio existencial caracterizado pelo tédio e pela apatia, causadores de dor e tristeza.
A função simbólica permite ao indivíduo certo grau de intolerância a algo que não lhe faz sentido e concede a ele tempo para elaborar e dar o devido sentido. Acontece que, na atualidade, vivemos um mundo do imediatismo, as pessoas já não tem mais tempo de esperar e tudo é para ontem. Apenas para ilustrar, podemos pensar no exemplo da fotografia. No passado, ao tirar uma foto, era necessário esperar que se terminasse todo um rolo de filme, para então levar a foto para ser revelada e, depois de alguns dias, sim, era possível ver como ficou. Hoje, com a tecnologia, a rapidez em que se tira uma foto e a disponibilidade de visualizá-la é incomparável. Pensando ainda na fotografia, antes, quando alguém nos visitava em nossas casas, parte da visita era para mostrar álbuns de fotografias. As pessoas sentavam para ver as fotos e conversavam. Hoje, o que acontece é uma mera transmissão de dados digitais, as fotos são enviadas por e-mails ou mesmo postadas em sites de relacionamento social.
Com tanta mudança, pode-se dizer que as pessoas estão sendo fragilizadas em seu narcisismo e por isso há um desamparo identitário. Quanto mais frágeis, maior a busca por formas de compensar esse vazio, seja por meio de substâncias psicoativas ou por meio de ações que dão a aparente ilusão de pertencimento à alguma tribo, isto é, o sujeito toma emprestado da cultura elementos – signos – que são usados como tijolos na construção de uma identidade despersonalizada e exteriorizada. Para exemplificar, podemos falar de consumismo, uso de tatuagem e piercing e de sites de relacionamento social que, quando não podem ser dispensados, tornam-se patológicos.
Nesta multiplicidade de coisas, as pessoas parecem que estão se “coisificando”, buscando a felicidade nas “coisas” fora de si e, como a felicidade não está lá fora, perdem-se num mundo mutante e incompreensível. Isolam-se em seus mundos virtuais, vivendo uma identidade superficial, exteriorizada e reificada.
Sendo assim, o que pensar deste mundo globalizado, mundo da informação? Cabe a cada um criar a coragem de olhar para dentro de si e se descobrir, reconhecer suas origens, sua história, seu verdadeiro “eu” e, a partir de então, construir um novo rumo para si, sendo o único responsável por si mesmo, autor de sua própria história.
       Para concluir, faço minhas as palavras de Forbes no vídeo a seguir:

 
 
Eu nascia na surpresa, agora, na previsão;
Eu não saia de casa, agora, vou para a creche;
Eu namorava alguém, agora, estou ficando;
Eu decorava tudo, agora, uso o Google;
Eu jantava na hora da família, agora, do microondas;
Eu fazia passeata, agora, nem serenata;
Eu escolhia uma faculdade, agora, estudo em várias;
Eu queria ser doutor, agora, inventor;
Eu saía de casa cedo, agora, sou canguru;
Eu casava lá pelos vinte, agora, quase aos quarenta;
Eu jamais me separava, agora, só divorcio;
Eu me aposentava aos cinquenta, agora, mudo de profissão;
Eu morria aos setenta, agora, tenho morte lenta.

E se alguém me perguntar o que eu vou fazer agora, antes, por favor, me responda:
- Afinal, que raios é a globalização?


                                                                                     Texto: Renne S. Nunes
                                                                                               Psicólogo


Fonte Video - Jorge Forbes: "Afinal, que raio é a globalização?" : YouTube
Fonte de Imagens: Google Image

segunda-feira, 30 de maio de 2011

AUTOCONHECIMENTO – O CAMINHO EM BUSCA DE SI MESMO


“O que reside atrás de nós e o que reside à nossa frente são de minúscula importância comparados ao que reside dentro de nós.”
– Oliver Wendell Holmes


Nós humanos parecemos seres complexos, difíceis de entender: ora estamos bem e felizes, ora parecemos nos sentir tristes ou insatisfeitos. Nossa autoestima oscila de acordo com as situações e principalmente em como nós nos sentimos diante de cada uma delas. Além dessas constantes oscilações, há pessoas que parecem ser mais seguras de si, mais estáveis emocionalmente enquanto outras parecem se perder, se desesperar quando algo acontece.
Ter controle sobre nossas emoções está ligado a ter um grau de autoconhecimento. Portanto, pergunte-se: O quanto você se conhece? Muito? Pouco?  A verdade é que a maior parte das pessoas acredita que se conhece, mas, de fato, se conhece muitíssimo pouco.


O autoconhecimento é essencial para que se desenvolva o amor por si próprio e fortaleça a autoestima. Porém, cada vez mais parece ser difícil alguém se conhecer interiormente quando sua busca está sempre no externo. As pessoas buscam cuidar da pele, mudar o corte do cabelo, comprar roupas, carros, eliminar alguns quilinhos, mas quase sempre esquecem que o caminho deve ser o contrário, de dentro para fora.
A baixa autoestima pode ser facilmente identificada quando se percebe características como: insegurança, inadequação, dificuldades de falar em público, perfeccionismo, dúvidas constantes, incerteza do que se é, sentimento vago de não ser capaz, de não conseguir realizar nada, não se permitir errar e demonstrar muita necessidade de agradar, ser aprovado e reconhecido pelo que faz e nem sempre pelo que é.


Buscar se conhecer não é uma tarefa fácil, exige tempo, paciência e humildade para reconhecer algumas características que, na grande maioria das vezes, não nos damos conta que estão presentes em nós. É cada vez maior o número de pessoas que procuram a ajuda da psicoterapia. Muitos vão em busca de um profissional psicólogo ou psicanalista porque anseiam por algum tipo de mudança que ainda não conseguem concretizar sozinhas ou mesmo não identificam.
Dividir o compromisso desta viagem rumo ao seu íntimo com o psicoterapeuta, dando-lhe o crédito de especialista, fornece ao paciente a segurança e o conforto tão necessários para iniciar esta jornada muitas vezes gratificante, mas intercalada por situações difíceis e desafiadoras.
O psicólogo é aquele que, com um olhar e uma escuta diferenciados, está preparado para acolher, guiar e acompanhar o sujeito numa estrada escura e desconhecida em busca de respostas para viver e superar uma situação de crise, desconforto, insegurança, recomeço, luto, tomada de decisão etc. A esse processo, dá-se o nome de autoconhecimento.
Aí está o primeiro passo para se alcançar o bem estar: exatamente no processo de conscientização, em que admitimos nossos entraves e dificuldades em mudarmos o que não gostamos, pois, a verdadeira mudança sempre se inicia em nós mesmos. Admitir nossas fraquezas, imperfeições é tão difícil quanto assumir responsabilidade pelo comando da nossa vida e por nossas escolhas, independentemente do quanto agrademos ou não as outras pessoas.
Neste movimento pelo autoconhecimento, o psicólogo assume, inicialmente, o papel de carregar a lanterna que clareia as encruzilhadas, as estranhezas e as belas paisagens desse percurso. Todavia, no decorrer do processo o paciente passa a adaptar a sua visão e a sua aceitação a este seu mundo nunca antes vasculhado. Com isso, passa a identificar e efetivar as mudanças que trarão a sua saúde psíquica e emocional, tornando-se capacitado, gradativamente, para manusear a lanterna, mas ainda sem abandonar a companhia do especialista.


Para quem se interessa em entrar num processo de psicoterapia, é importante ressaltar que o bom andamento do tratamento depende, entre outros fatores, da parceria de confiança e honestidade que se estabelece entre paciente e psicoterapeuta, assim como do compromisso do paciente em apropriar-se do seu processo de mudança e cura.
Por fim, devo afirmar que a busca pelo autoconhecimento é o único caminho efetivo para que a pessoa possa estar bem consigo própria, em primeiro lugar, e, a partir de então, com as outras pessoas. De tal modo, creio que grande parte do que chamamos de bem estar está associado a um processo em que a pessoa experimenta este sentido de estar bem a partir de suas próprias ações e de um maior conhecimento de si e do que almeja, honestamente, para sua própria vida.


Autor: Renne dos Santos Nunes
Psicólogo

Publicado no Itajubá Notícias em 25/05/2011
Imagens: GOOGLE



segunda-feira, 23 de maio de 2011

A VIDA É HONRA

Por Jorge Forbes



Na mesma semana, dois fatos contrários. Enquanto festejávamos a moça que, visitando o túmulo do seu pai, avisa a polícia de um assassinato cometido pela própria polícia, somos confrontados pelo moço que loucamente invade uma escola e mata mais de dez alunos, ferindo gravemente outros tantos, para ao final se suicidar.

 A alegria que nos deu o gesto da moça desapareceu na enxurrada de sofrimento provocada pela morte das crianças na idade do sonho. Fica uma pergunta no ar de todas as mídias: Por que? 

Por que ele fez isso, o que o motivou, com qual intenção, era psicótico, fiel de religiões bárbaras, possuído pelo demo, desorientado sexual, revoltado pela adoção, por que, por que? E toca-se a perscrutar seu passado, seus escritos, conversar com familiares, vizinhos e conhecidos, refazer seus percursos, tudo na tentativa de encontrar supostos elos lógicos que justifiquem o assassinato de tantas crianças. Pululam profetas do passado lutando levianamente pela audiência televisiva.

Cá entre nós - paremos um pouquinho - será que alguém seriamente pensa que existiria uma lógica que explicaria essa atrocidade? Uma determinação genética ou cultural assassina? Não me parece crível. O que me é mais convincente é que a sociedade, de tão assustada frente a seu próprio horror, tenta inventar respostas que justifiquem o injustificável, que a assegure que aquela pessoa é diferente de todas outras, enfim, que não tem nada a ver comigo, nem com você.

A presidente Dilma, no momento do ocorrido, declarou que o Brasil não estava acostumado a esse tipo de crime. É certo, não estava acostumado, mas, como se viu, não estava imune. Associamos essa modalidade criminosa mais à América do Norte e a alguns países da Europa, que nos antecederam em ocorrências. Vivemos uma era na qual, se não tomarmos cuidado, descambaremos para a banalização radical da vida. Longos amores já são desfeitos em curtos e-mails: - “Fui”. Pessoas que nos desagradam não merecem resposta, basta “deletar”, palavra nova que associa uma pessoa a uma letra: um toque e pronto, ela desaparece. Sim, sei que o abismo entre os exemplos é enorme, mas, insisto: que nome se dá a “matar” na gíria criminosa se não, “apagar”?

Para complicar ainda mais nosso estarrecimento, como não perceber a ânsia desses assassinos em que querem fazer de sua morte um acontecimento? Esse é um padrão que se repete em todos os casos: se tive uma vida deletável, terei uma morte memorável.

A solução não reside, por tudo isso, no aumento de segurança armada dos estabelecimentos públicos. Seria uma atitude que corresponde a uma visão muito reduzida do que nos ocorre. Pode acalmar, de imediato, angústias desesperadas, mas nem resvalará no problema que nos abate.

Voltemos à moça do cemitério e a seu gesto. Ela contrariou todas as ordens de salvaguarda pessoal que nos doutrinam nas delegacias e na mídia. – “Jamais responda a um atacante, não olhe para ele, abaixe a cabeça, entregue tudo para não entregar a vida, não fuja, fale docemente, chame de senhor, não defenda alguém que está sendo atacado, etc, etc.” A moça foi muito desobediente. Naquele cemitério vazio e afastado, ela, sozinha, homenageava seu pai morto. De repente um assassinato – e por policiais – na sua frente. Fugir, se amedrontar, se esconder em um túmulo vazio, como lhe ensinaram? Ao contrário, altivamente, cheia de orgulho humano, pois se trata muito mais de honra que de coragem, ela vai a um telefone público, liga para a polícia militar e descreve calmamente e em detalhes o que está presenciando. E ainda mais, ao ver a aproximação dos homens fardados é ela que toma a iniciativa de abordá-los e de inquiri-los sobre o que acabaram de fazer. Ela deve tê-los assustado, não por uma força maior que a deles, mas por agir em outro registro, aquele que lhe dizia que sim, é claro que ela podia fugir, mas viver não é sobreviver, salvar a pele não é salvar a vida, uma vida vai bem além da pele.

Imagine, caro leitor, uma sociedade composta de pessoas do tipo dessa moça, pessoas que não respondem às armas pelas armas, mas sim respondem às armas pelo constrangimento, que aposta que o pior assassino pode ser tocado em um ponto do constrangimento humano. Mesmo que difícil, não é utópico como o exemplo da moça o demonstra, e o primeiro passo é recuperarmos a noção que viver é muito mais que sobreviver e que não se vive, não se respira em uma sociedade de deletáveis.
 

Fonte: Revista Psique Ciência & Vida,  Ano VI, nº 65 - Maio 2011